

Gabriel Garca Mrquez

A Incrvel e Triste Histria
da Cndida Erndira
e da sua Av Desalmada



     
     
     Dirio de Notcias
     
     
     
     Ttulo original:
     La increbley triste historia de la cndida
     Erndira y su abuela desalmada
     
     
     Traduo de
     Pilar Delvaulx
     Traduo cedida por 
     Publicaes Europa-Amrica, Lda.
     
     
     (c) 1972 Gabriel Garcia Mrquez
     2003 BIBLIOTEX EDITOR, S.L., para esta edio
     
     
     Prmio Nobel 1982
     Dirio de Notcias
     
     
     

     
     
      ndice
     
     Um senhor muito velho com umas asas muito grandes
     O mar do tempo perdido
     O afogado mais formoso do mundo
     Morte constante para alm do amor
     A ltima viagem do navio fantasma
     Blacamn, o bom vendedor de milagres
     A incrvel e triste histria da cndida Erndira e da sua av desalmada
     

     
     
     Um senhor muito velho com umas asas muito grandes
      
     
     No terceiro dia de chuva tinham matado tantos caranguejos dentro de casa que Pelayo teve de atravessar o seu ptio inundado para atir-los ao mar, pois o beb 
recm-nascido tinha passado a noite com febre e pensava-se que era por causa da pestilncia. O mundo estava triste desde tera-feira. O cu e o mar eram uma nica 
e mesma coisa de cinza e as areias da praia, que em Maro resplandeciam como poeira de luz, tinham-se transformado numa papa de lodo e mariscos podres. A luz era 
to fraca ao meio-dia que, quando Pelayo regressava a casa depois de ter deitado fora os caranguejos, teve dificuldade em ver o que era que se movia e gemia no fundo 
do ptio. Teve de aproximar-se muito, para descobrir que era um homem velho, que estava cado de borco no lodaal e que, apesar dos seus grandes esforos, no podia 
levantar-se, porque lho impediam as suas enormes asas.
     Assustado por aquela viso aflitiva, Pelayo correu em busca de Elisenda, sua mulher, que estava a pr compressas ao beb doente, e levou-a at ao fundo do ptio. 
Ambos observaram o corpo cado com um silencioso pasmo. Estava vestido como um trapeiro. No lhe restavam mais do que uns fiapos descoloridos no crnio pelado e 
pouqussimos dentes na boca, e essa lastimosa condio de bisav ensopado tinha-o desprovido de qualquer grandeza. As suas asas de abutre velho, sujas e meio depenadas, 
estavam encalhadas para sempre no lodaal. Tanto o observaram, e com tanta ateno, que Pelayo e Elisenda muito rapidamente se recompuseram do assombro e acabaram 
por ach-lo familiar. Ento atreveram-se a falar-lhe, e ele respondeu-lhes num dialecto incompreensvel, mas com uma boa voz de navegante. Foi por isso que deixaram 
de preocupar-se com o inconveniente das asas e chegaram  sensata concluso de que era um nufrago solitrio de algum navio estrangeiro, desfeito pelo temporal. 
Contudo, chamaram, para que o visse, uma vizinha que sabia todas as coisas da vida e da morte, e a ela chegou-lhe um olhar para tir-los do engano.
     -  um anjo - disse-lhes. - Com certeza vinha por causa da criana, mas o desgraado est to velho que a chuva o fez cair.
     No dia seguinte toda a gente sabia que em casa de Pelayo tinham cativo um anjo de carne e osso. Contra o critrio da vizinha sbia, para quem os anjos destes 
tempos eram sobreviventes fugitivos de uma conspirao celestial, no tinham tido coragem para mat-lo  paulada. Pelayo esteve toda a tarde a vigi-lo, da cozinha, 
armado com o seu garrote de aguazil, e, antes de deitar-se, tirou-o de rastros do lodaal e fechou-o com as galinhas no galinheiro alambrado.  meia-noite, quando 
terminou a chuva, Pelayo e Elisenda continuavam a matar caranguejos. Pouco depois o menino acordou, sem febre e com desejos de comer. Ento sentiram-se magnnimos 
e decidiram pr o anjo numa balsa com gua doce e provises para trs dias e abandon-lo  sua sorte no mar alto. Mas, quando foram ao ptio com as primeiras claridades, 
encontraram toda a vizinhana em frente do galinheiro, divertindo-se com o anjo, sem a menor devoo e a atirar-lhe coisas para comer pelos buracos dos alambres, 
como se no se tratasse de uma criatura sobrenatural, mas sim de um animal de circo.
     O padre Gonzaga chegou antes das sete, alarmado pela desproporo da notcia. A essa hora j tinham acorrido curiosos menos frvolos que os do amanhecer e tinham 
feito toda a espcie de suposies sobre o futuro do cativo. Os mais simples pensavam que seria nomeado alcaide do mundo. Outros, de esprito mais austero, supunham 
que seria promovido a general de cinco estrelas, para que ganhasse todas as guerras. Alguns visionrios esperavam que fosse conservado como reprodutor, para implantar 
na Terra uma estirpe de homens alados e sbios que se encarregassem do universo. Mas o padre Gonzaga, antes de ser cura, tinha sido lenhador vigoroso. Chegado aos 
alambres, fez uma rpida reviso do seu catecismo, e, entretanto, pediu que lhe abrissem a porta, para examinar de perto aquele varo de lstima que mais parecia 
uma enorme galinha decrpita entre as galinhas absortas. Estava deitado num canto, secando ao sol as asas estendidas, entre as cascas de frutas e as sobras de pequenos-almoos 
que lhe tinham atirado os madrugadores. Alheio s impertinncias do mundo, mal levantou os seus olhos de antiqurio e murmurou alguma coisa no seu dialecto quando 
o padre Gonzaga entrou no galinheiro e lhe deu os bons-dias em latim. O proco teve a primeira suspeita da sua impostura ao verificar que no compreendia a lngua 
de Deus nem sabia cumprimentar os seus ministros. A seguir, observou que, visto de perto, tinha a aparncia demasiado humana: tinha um insuportvel odor de intemprie, 
o avesso das asas semeado de algas parasitrias e as penas maiores maltratadas por ventos terrestres, e nada da sua natureza miservel estava de acordo com a egrgia 
dignidade dos anjos. Ento abandonou o galinheiro e, com um breve sermo, preveniu os curiosos contra os riscos da ingenuidade. Recordou-lhes que o Demnio tinha 
o mau hbito de servir-se de artifcios de Carnaval para confundir os incautos. Argumentou que, se as asas no eram o elemento essencial para determinar as diferenas 
entre um gavio e um aeroplano, muito menos o podiam ser para reconhecer os anjos. No entanto, prometeu escrever uma carta ao seu bispo, para que este escrevesse 
outra ao seu primaz e para que este escrevesse outra ao Sumo Pontfice, de maneira que o veredicto final viesse dos tribunais mais altos.
     A sua prudncia caiu em coraes estreis. A notcia do anjo cativo divulgou-se com tanta rapidez que ao cabo de poucas horas havia no ptio um alvoroo de 
mercado, e tiveram de levar a tropa, com baionetas, para espantar o tumulto, que j estava quase a deitar a casa abaixo. Elisenda, com o espinhao torcido de tanto 
varrer lixo de feira, teve ento a boa ideia de taipar o ptio e receber cinco centavos pela entrada para ver o anjo.
     Vieram curiosos at da Martinica. Veio uma feira ambulante com um acrobata voador, que passou a zumbir vrias vezes por cima da multido, mas ningum lhe ligou 
importncia, porque as suas asas no eram de anjo, mas de morcego sideral. Vieram em busca de sade os doentes mais infelizes do Caribe: uma pobre mulher que desde 
criana estava a contar os latejos do seu corao e j no tinha nmeros que lhe chegassem, um jamaicano que no podia dormir porque o atormentava o rudo das estrelas, 
um sonmbulo que se levantava de noite para desfazer as coisas que tinha feito acordado, e muitos outros de menor gravidade. No meio daquela desordem de naufrgio 
que fazia tremer a terra, Pelayo e Elisenda estavam felizes de cansao, porque em menos de uma semana atulhavam de dinheiro os quartos de dormir, e, todavia, a fila 
de peregrinos que esperavam vez para entrar chegava at ao outro lado do horizonte.
     O anjo era o nico que no participava do seu prprio acontecimento. O tempo ia-se-lhe em procurar acomodao no seu ninho emprestado, aturdido pelo calor de 
inferno das lamparinas de azeite e das velas de sacrifcio que lhe encostavam aos alambres. Ao princpio insistiram para que comesse cristais de cnfora, que, de 
acordo com a sabedoria da vizinha sbia, era o alimento especfico dos anjos. Mas ele desprezava-os, como desprezou, sem os provar, os almoos papais que lhe levavam 
os penitentes, e nunca se soube se foi por ser anjo ou por ser velho que acabou por comer nada mais que papas de beringela. A sua nica virtude sobrenatural parecia 
ser a pacincia. Sobretudo nos primeiros tempos, quando o espiolhavam as galinhas em busca dos parasitas estelares que proliferavam nas suas asas e os aleijados 
lhe arrancavam penas, para tocar com elas nos seus defeitos, e at os mais piedosos lhe atiravam pedras, tentando conseguir que se levantasse, para v-lo de corpo 
inteiro. A nica vez que conseguiram perturb-lo foi quando lhe queimaram as costas com um ferro de marcar novilhos, porque havia tantas horas que estava imvel 
que pensaram que estava morto. Acordou sobressaltado, disparatando em lngua hermtica e com os olhos em lgrimas, e bateu as asas duas vezes, o que provocou um 
remoinho de estrume de galinheiro e p lunar e um vendaval de pnico que no parecia deste mundo. Apesar de muitos terem ficado convencidos de que a sua reaco 
no tinha sido de raiva, mas sim de dor, desde esse dia trataram de no o incomodar, porque a maioria compreendeu que a sua passividade no era a de um heri em 
gozo de boa reforma, mas a de um cataclismo em repouso.
     O padre Gonzaga enfrentou a frivolidade da multido com frmulas de inspirao domstica, enquanto lhe chegava um parecer decisivo sobre a natureza do cativo. 
Mas o correio de Roma tinha perdido a noo da urgncia. O tempo ia-se-lhes a averiguar se o prisioneiro tinha umbigo, se o seu dialecto tinha alguma coisa a ver 
com o aramaico, se podia caber muitas vezes na ponta dum alfinete, ou se no seria simplesmente um noruegus com asas. Aquelas cartas de parcimnia teriam ido e 
vindo at ao fim dos sculos se um acontecimento providencial no tivesse posto um fim s tribulaes do proco.
     Sucedeu que, por esses dias, entre muitas outras atraces das feiras ambulantes do Caribe, levaram ao povoado o espectculo triste da mulher que se tinha convertido 
em aranha por ter desobedecido a seus pais. A entrada para a ver no s custava menos que a entrada para ver o anjo, mas ainda permitiam fazer-lhe toda a espcie 
de perguntas sobre a sua absurda condio e examin-la pelo direito e pelo avesso, de maneira que ningum pusesse em dvida a veracidade do horror. Era uma tarntula 
espantosa do tamanho de um carneiro e com a cabea de uma donzela triste. Porm, o mais aflitivo no era a sua aparncia de disparate, mas a sincera aflio com 
que contava os pormenores da sua desgraa; sendo quase uma criana, tinha-se escapado de casa dos seus pais para ir a um baile, e, quando regressava pelo bosque, 
depois de ter danado toda a noite sem autorizao, um trovo pavoroso abriu o cu em duas metades e por aquela greta saiu o relmpago de enxofre que a converteu 
em aranha. O seu nico alimento eram as bolinhas de carne moda que as almas caritativas quisessem deitar-lhe na boca. Semelhante espectculo, carregado de tanta 
verdade humana e de to temvel castigo, tinha de derrotar, sem premeditao, o de um anjo despeitoso que mal se dignava olhar para os mortais. Alm disso, os raros 
milagres que se atribuam ao anjo revelavam uma certa desordem mental, como o do cego que no recuperou a vista mas a quem apareceram trs dentes novos, o do paraltico 
que no pde andar mas esteve quase a ganhar a lotaria e o do leproso a quem nasceram girassis nas feridas. Aqueles milagres de consolao, que mais pareciam divertimentos 
de troa, j tinham enfraquecido a reputao do anjo quando a mulher convertida em aranha acabou de a aniquilar.
     Foi desta maneira que o padre Gonzaga se curou para sempre das insnias e o ptio de Pelayo voltou a ficar to solitrio como nos tempos em que choveu trs 
dias e os caranguejos andavam pelos quartos.
     Os donos da casa no tiveram nada que lamentar. Com o dinheiro arrecadado construram uma manso de dois andares, com balces e jardins e com muros muito altos, 
para que no entrassem os caranguejos do Inverno, e com barras de ferro nas janelas, para que no entrassem os anjos. Pelayo instalou, alm disso, uma criao de 
coelhos muito perto da povoao, renunciando para sempre ao seu mau emprego de aguazil, e Elisenda comprou uns sapatos acetinados com saltos altos e muitos vestidos 
de seda furta-cor, como os que usavam as senhoras mais categorizadas nos domingos daqueles tempos. O galinheiro foi a nica coisa que no mereceu ateno. Se alguma 
vez o lavaram com creolina e nele queimaram as lgrimas de mirra, no foi para prestar honras ao anjo, mas para conjurar a pestilncia de esterqueira, que andava 
como um fantasma por toda a parte e estava a tornar velha a casa nova. Ao princpio, quando o menino comeou a andar, tiveram cuidado para que no estivesse muito 
perto do galinheiro. Mas depois foram-se esquecendo do temor e acostumando-se  pestilncia, e antes que o menino mudasse os dentes tinha-se habituado a brincar 
dentro do galinheiro, cujos alambres apodrecidos caam aos bocados. O anjo no foi menos desabrido para com ele do que para com o resto dos mortais, mas suportava 
as infmias mais engenhosas com uma mansuetude de co sem iluses. Ambos contraram a varicela ao mesmo tempo. O mdico que tratou o menino no resistiu  tentao 
de auscultar o anjo e encontrou-lhe tantos sopros no corao e tantos rudos nos rins que no lhe pareceu possvel que estivesse vivo. O que mais o assombrou, contudo, 
foi a lgica das suas asas. Pareciam to naturais naquele organismo completamente humano que no podia compreender-se porque no as tinham tambm os outros homens.
     Quando o menino foi  escola, havia muito tempo que o sol e a chuva tinham desmantelado o galinheiro. O anjo andava a arrastar-se por aqui e por ali, como um 
moribundo sem dono. Expulsavam-no a vassouradas de um quarto e um momento depois encontravam-no na cozinha. Parecia estar em tantos lugares ao mesmo tempo que chegaram 
a pensar que se desdobrava, que se repetia a si mesmo por toda a casa, e a exasperada Elisenda gritava, fora de si, que era uma desgraa viver naquele inferno cheio 
de anjos. Mal podia comer, os seus olhos de antiqurio tinham-se-lhe tornado to turvos que andava a tropear nas vigas que sustentavam o telhado e j no lhe restavam 
seno os rquis pelados das ltimas penas. Pelayo atirou-lhe para cima uma manta e fez-lhe a caridade de o deixar dormir no alpendre, e s ento repararam que passava 
a noite com febres, delirando, em tartamudeios de noruegus velho. Foi essa uma das poucas vezes em que se alarmaram, porque pensavam que ia morrer e nem sequer 
a vizinha sbia tinha podido dizer-lhes o que se fazia com os anjos mortos.
     No entanto, no s sobreviveu ao seu pior Inverno como at pareceu melhor com os primeiros sis. Permaneceu imvel durante muitos dias no canto mais afastado 
do ptio, onde ningum o visse, e em princpios de Dezembro comearam a nascer-lhe nas asas umas penas grandes e duras, penas de passaro velho, que mais pareciam 
um novo percalo da decrepitude. Mas ele devia conhecer a razo dessas mudanas, porque tinha todo o cuidado para que ningum as notasse e para que ningum ouvisse 
as canes de navegantes que s vezes cantava sob as estrelas.
     Uma manh, Elisenda estava a cortar rodelas de cebola para o almoo, quando um vento que parecia do alto mar se meteu na cozinha. Ento assomou-se  janela 
e surpreendeu o anjo nas primeiras tentativas do voo. Eram to desajeitadas que abriu com as unhas um sulco de arado nas hortalias e esteve quase a deitar abaixo 
o alpendre, com aqueles adejos indignos que escorregavam na luz e no encontravam apoio no ar. Mas conseguiu ganhar altura. Elisenda exalou um suspiro de alvio, 
por ela e por ele, quando o viu passar por cima das ltimas casas, sustentando-se de qualquer maneira com um agourento esvoaar de abutre senil. Continuou a v-lo 
at ter acabado de cortar a cebola, e continuou a v-lo at quando j no era possvel que o pudesse ver, porque nesse momento j no era um estorvo na sua vida, 
mas um ponto imaginrio no horizonte do mar.
     

     
     
     O mar do tempo perdido.
      
     Para o fim de Janeiro o mar ia-se tornando tempestuoso, comeava a despejar sobre a povoao um lixo espesso e poucas semanas depois tudo estava contaminado 
pelo seu humor insuportvel. A partir de ento o mundo no valia a pena, pelo menos at ao outro Dezembro, e ningum ficava acordado depois das oito. Mas no ano 
em que veio o senhor Herbert o mar no se alterou, nem sequer em Fevereiro. Pelo contrrio, tornou-se cada vez mais liso e fosforescente, e nas primeiras noites 
de Maro exalou uma fragrncia de rosas.
     Tobas sentiu-a. Tinha o sangue doce para os caranguejos e passava a maior parte da noite a espant-los da cama, at que virava a brisa e conseguia dormir. 
Durante as suas longas insnias tinha aprendido a distinguir qualquer mudana do ar. De maneira que quando sentiu um cheiro de rosas no precisou de abrir a porta 
para saber que era um cheiro do mar.
     Levantou-se tarde. Clotilde estava a acender o lume no ptio. A brisa era fresca e todas as estrelas estavam nos seus lugares, mas era difcil cont-las at 
ao horizonte, por causa das luzes do mar. Depois de tomar caf, Tobas sentiu um ressaibo da noite no paladar.
     - Esta noite - recordou - sucedeu uma coisa muito estranha.
     Clotilde, evidentemente, no a tinha sentido. Dormia de uma maneira to pesada que nem sequer recordava os sonhos.
     - Era um cheiro de rosas - disse Tobas -, e tenho a certeza de que vinha do mar.
     - No sei a que cheiram as rosas - disse Clotilde. Talvez fosse verdade. O povoado era rido, com um solo duro, gretado pelo salitre, e s de vez em quando 
algum trazia de outro lugar um ramo de flores para o atirar ao mar, no stio de onde se atiravam os mortos.
     -  o mesmo cheiro que tinha o afogado de Guacamayal - disse Tobas.
     - Est bem - sorriu Clotilde -, ento se era um bom cheiro, podes ter a certeza de que no vinha deste mar.
     Era, com efeito, um mar cruel. Em certas pocas, enquanto as redes no arrastavam seno lixo em suspenso, as ruas do povoado ficavam cheias de peixes mortos 
quando se retirava a mar. A dinamite s punha a flutuar os restos de antigos naufrgios.
     As raras mulheres que ficavam na aldeia, como Clotilde, viviam cheias de rancor. E, como ela, a esposa do velho Jacob, que naquela manh se levantou mais cedo 
que de costume, ps a casa em ordem e chegou ao pequeno-almoo com uma expresso de adversidade.
     - A minha ltima vontade - disse ao seu esposo -  que me enterrem viva.
     Disse-o como se estivesse no seu leito de agonizante, mas estava sentada na cabeceira da mesa, numa sala de jantar com grandes janelas, por onde entrava a jorros 
e se metia por toda a casa a claridade de Maro. Em frente dela, apascentando a sua fome repousada, estava o velho Jacob, um homem que a estimava tanto e desde h 
tanto tempo que j no podia conceber nenhum sofrimento que no tivesse origem na sua mulher.
     - Quero morrer com a certeza de que me poro debaixo da terra, como s pessoas decentes - prosseguiu ela. - E a nica maneira de o saber  ir-me para outro 
lugar a suplicar a caridade de me enterrarem viva.
     - No precisas de suplic-lo a ningum - disse com muita calma o velho Jacob. - Hei-de levar-te eu mesmo.
     - Ento vamo-nos - disse ela -, porque vou morrer muito em breve.
     O velho Jacob examinou-a a fundo. S os seus olhos permaneciam jovens. Os ossos tinham-se tornado descarnados nas articulaes e tinha o mesmo aspecto de terra 
aplanada que, no fim de contas, sempre tinha tido.
     - Ests melhor do que nunca - disse-lhe.
     - Esta noite - suspirou ela - senti um cheiro de rosas.
     - No te preocupes - tranquilizou-a o velho Jacob. - Essas so coisas que nos sucedem aos pobres.
     - Nada disso - disse ela. - Sempre rezei para que me seja anunciada a morte com a devida antecipao, para morrer longe deste mar. Um cheiro de rosas nesta 
povoao no pode ser seno um aviso de Deus.
     O velho Jacob no se lembrou de mais nada seno de pedir-lhe um pouco de tempo para arranjar as coisas. Tinha ouvido dizer que a gente no morre quando deve, 
mas sim quando quer, e estava seriamente preocupado com a premonio da sua mulher. At se interrogou para saber se, chegado o momento, teria coragem para a enterrar 
viva.
     s nove abriu o local onde tivera antes uma loja. Ps na porta duas cadeiras e uma mesinha com o tabuleiro das damas e esteve toda a manh a jogar com adversrios 
ocasionais. Do seu lugar via a povoao em runas, as casas descalabradas, com vestgios de antigas cores carcomidas pelo sol e um pedao de mar no fim da rua.
     Antes do almoo, como sempre, jogou com dom Mximo Gmez.
     O velho Jacob no podia imaginar um adversrio mais humano que um homem que tinha sobrevivido intacto a duas guerras civis e s tinha deixado um olho na terceira. 
Depois de perder propositadamente uma partida, reteve-o para outra.
     - Diga-me uma coisa, dom Mximo - perguntou-lhe ento -, o senhor seria capaz de enterrar a sua esposa viva?
     - Com certeza - disse dom Mximo Gmez. - Voc creia-me que a mo no me tremeria.
     O velho Jacob guardou um silncio assombrado. A seguir, tendo-se deixado despojar das suas melhores peas, suspirou:
     -  que, pelo que parece, a Petra vai morrer. Dom Mximo Gmez no se perturbou.
     - Nesse caso - disse -, no tem necessidade de a enterrar viva. - Comeu duas peas e fez uma dama. Depois fixou no seu adversrio um olho humedecido por uma 
gua triste. - Que  que ela tem?
     - Esta noite - explicou o velho Jacob - sentiu um cheiro de rosas.
     - Ento vai morrer meio povoado - disse dom Mximo Gmez. - Esta manh no se tem ouvido falar de outra coisa.
     O velho Jacob teve de fazer um grande esforo para perder de novo, sem o ofender. Guardou a mesa e as cadeiras, fechou a loja e andou por todos os lados em 
busca de algum que tivesse sentido o cheiro. Por fim, s Tobas tinha a certeza. De maneira que lhe pediu o favor de passar pela sua casa, como se fosse por acaso, 
e de contar tudo  sua mulher.
     Tobas cumpriu. s quatro, vestido como para fazer uma visita, apareceu no corredor onde a esposa tinha passado a tarde preparando para o velho Jacob a sua 
roupa de vivo.
     Fez uma entrada to sigilosa que a mulher sobressaltou-se.
     - Santo Deus - exclamou -, pensei que fosse o arcanjo Gabriel.
     - Pois veja que no - disse Tobas. - Sou eu e venho para lhe contar uma coisa.
     Ela ajustou as lunetas e voltou ao trabalho. -J sei o que  - disse.
     - Aposto que no - disse Tobas.
     - Que esta noite sentiste um cheiro de rosas.
     - Como o soube? - perguntou Tobas, desolado.
     - Na minha idade - disse a mulher - tem-se tanto tempo para pensar que uma pessoa acaba por tornar-se adivinha.
     O velho Jacob, que tinha a orelha encostada ao tabique do quarto atrs da loja, endireitou-se, envergonhado.
     - Que te parece, mulher?! - gritou atravs do tabique. Deu a volta e apareceu no corredor. - Ento no era o que tu pensavas.
     - So mentiras deste rapaz - disse ela, sem levantar a cabea. - No sentiu nada.
     - Foi por volta das onze - disse Tobas -, e eu estava a espantar os caranguejos.
     A mulher acabou de remendar um colarinho.
     - Mentiras - insistiu. - Toda a gente sabe que s um mentiroso. - Cortou o fio com os dentes e olhou para Tobas por cima das lentes. - O que no compreendo 
 que te tenhas dado ao trabalho de untar o cabelo com vaselina e de engraxar os sapatos unicamente para vires faltar-me ao respeito.
     A partir da, Tobas comeou a vigiar o mar. Pendurava a rede no corredor do ptio e passava a noite esperando, assombrado com as coisas que acontecem no mundo 
enquanto as pessoas esto a dormir. Durante muitas noites ouviu o arranhar desesperado dos caranguejos tentando marinhar pelas vigas, at que passaram tantas noites 
que se cansaram de insistir. Conheceu a maneira de dormir de Clotilde. Reparou que os seus roncos de flauta se foram tornando mais agudos  medida que o calor aumentava, 
at se converterem numa nica nota lnguida, no torpor de Julho.
     Ao princpio Tobas vigiou o mar como o fazem aqueles que o conhecem bem, com o olhar fixo num nico ponto do horizonte. Viu-o mudar de cor. Viu-o apagar-se, 
tornar-se espumoso e sujo e lanar os seus arrotos carregados de desperdcios, quando as grandes chuvas agitaram a sua digesto tormentosa. Pouco a pouco, foi aprendendo 
a vigi-lo como o fazem aqueles que o conhecem melhor, sem olh-lo sequer, mas sem poder esquec-lo nem sequer durante o sono.
     Em Agosto morreu a esposa do velho Jacob. Amanheceu morta na cama e tiveram de atir-la, como a toda a gente, para um mar sem flores. Tobas continuou  espera. 
Tinha esperado tanto que aquilo se converteu na sua maneira de ser. Uma noite, enquanto dormitava na rede, deu-se conta de que alguma coisa tinha mudado no ar. Foi 
uma lufada intermitente, como nos tempos em que o barco japons despejou na entrada do porto um carregamento de cebolas podres. Seguidamente, o cheiro consolidou-se 
e no tornou a mover-se at ao amanhecer. S quando teve a impresso de que podia agarr-lo com as mos para mostr-lo, Tobas saltou da rede e entrou no quarto 
de Clotilde. Sacudiu-a vrias vezes.
     - C est - disse-lhe.
     Clotilde teve de afastar o cheiro com os dedos, como uma teia de aranha, para poder endireitar-se. A seguir voltou a deixar-se cair na lona tpida.
     - Maldito seja - disse.
     Tobas deu um salto at  porta, saiu para o meio da rua e comeou a gritar. Gritou com todas as suas foras, respirou fundo e tornou a gritar, a seguir fez 
um silncio e respirou mais fundo, e o cheiro ainda estava no mar. Mas ningum respondeu. Ento foi batendo de casa em casa, inclusivamente nas casas de ningum, 
at que o seu alvoroo se misturou com o dos ces e acordou toda a gente.
     Muitos no o sentiram. Mas outros, e especialmente os velhos, desceram para o gozar na praia. Era uma fragrncia compacta que no podia comparar-se a nenhum 
cheiro do passado. Alguns, esgotados de tanto cheirar, regressaram a casa. A maioria ficou a acabar o sono na praia. Ao amanhecer o cheiro era to puro que fazia 
pena respirar.
     Tobas dormiu quase todo o dia. Clotilde foi ter com ele durante a sesta e passaram a tarde a divertir-se na cama sem fechar a porta do ptio. Primeiro fizeram 
como as lombrigas, depois como os coelhos e por fim como as tartarugas, at que o mundo se ps triste e voltou a escurecer. Contudo, ficavam vestgios de rosas no 
ar. s vezes, chegava at ao quarto uma onda de msica.
     -  no Catarino - disse Clotilde. - Deve ter chegado algum.
     Tinham chegado trs homens e uma mulher. Catarino pensou que, mais tarde, podiam vir outros, e tentou consertar a grafonola. Como no o conseguiu, pediu esse 
favor a Pancho Aparecido, que fazia toda a espcie de coisas porque nunca tinha nada que fazer e, alm disso, tinha uma caixa de ferramentas e umas mos inteligentes.
     A taberna do Catarino era uma casa afastada, de madeira, em frente ao mar. Tinha um salo grande com bancos e mesinhas e vrios quartos no fundo. Enquanto observavam 
o trabalho de Pancho Aparecido, os trs homens e a mulher bebiam em silncio, sentados ao balco, e bocejavam por turnos.
     A grafonola funcionou bem depois de muitas experincias. Ao ouvir a msica, remota mas definida, as pessoas deixaram de conversar. Olharam umas para as outras 
e durante um momento no tiveram nada para dizer, porque s ento se deram conta de quanto tinham envelhecido desde a ltima vez em que tinham ouvido msica.
     Tobas encontrou toda a gente acordada depois das nove. Estavam sentados  porta, escutando os velhos discos do Catarino, na mesma atitude de fatalismo pueril 
com que se contempla um eclipse. Cada disco recordava-lhes algum que tinha morrido, o sabor que tinham os alimentos depois de uma longa doena, ou alguma coisa 
que deviam fazer no dia seguinte, muitos anos atrs, e que nunca fizeram, por esquecimento.
     A msica acabou por volta das onze. Muitos deitaram-se pensando que ia chover, porque havia uma nuvem escura sobre o mar. Mas a nuvem desceu, esteve a flutuar 
um momento  superfcie e acabou por afundar-se na gua. Por cima s ficaram as estrelas. Pouco depois, a brisa da povoao foi at ao centro do mar e trouxe de 
regresso uma fragrncia de rosas.
     - Eu disse-lho, Jacob - exclamou dom Mximo Gmez.
     - C o temos outra vez. Tenho a certeza de que agora o sentiremos todas as noites.
     - Deus nos livre disso - disse o velho Jacob. - Este cheiro  a nica coisa na vida que me chegou demasiado tarde.
     Tinham jogado s damas na loja vazia, sem prestar ateno aos discos. As suas recordaes eram to antigas que no existiam discos suficientemente velhos para 
as fazer voltar.
     - Eu, pela minha parte, no acredito muito em nada disto - disse dom Mximo Gmez. - Depois de tantos anos a comer terra, com tantas mulheres desejando um patiozinho 
onde semear as suas flores, no admira que uma pessoa acabe por sentir estas coisas, e at por acreditar que so verdadeiras.
     - Mas estamos a senti-lo com os nossos prprios narizes - disse o velho Jacob.
     - No quer dizer nada - disse dom Mximo Gmez. - Durante a guerra, quando a revoluo j estava perdida, tnhamos desejado tanto um general que vimos aparecer 
o duque de Marlborough, em carne e osso. Eu vi-o com os meus prprios olhos, Jacob.
     Passava da meia-noite. Quando ficou s, o velho Jacob fechou a loja e levou a luz para o quarto. Atravs da janela, recortada na fosforescncia do mar, via 
a rocha de onde atiravam os mortos.
     - Petra - chamou, em voz baixa.
     Ela no pde ouvi-lo. Naquele momento navegava quase  superfcie da gua, num meio-dia radiante do golfo de Bengala. Tinha levantado a cabea para ver atravs 
da gua, como numa vitrina iluminada, um transatlntico enorme. Mas no podia ver o seu esposo, que nesse instante comeava a ouvir de novo a grafonola do Catarino, 
no outro lado do mundo.
     - Repara - disse o velho Jacob. - H apenas seis meses supuseram-te louca e agora eles prprios fazem festa com o cheiro que te causou a morte.
     Apagou a luz e meteu-se na cama. Chorou devagarinho, com o chorinho sem graa dos velhos, mas muito depressa adormeceu.
     - Punha-me a andar desta aldeia, se pudesse - soluou entre soluos. - Iria mesmo para o catano, se, pelo menos, tivesse vinte pesos arrecadados.
     Desde aquela noite, e durante vrias semanas, o cheiro permaneceu no mar. Impregnou a madeira das casas, os alimentos e a gua de beber e deixou de haver um 
lugar onde estar sem o sentir. Muitos se assustaram ao encontr-lo no vapor da sua prpria cagada. Os homens e a mulher que tinham vindo  taberna do Catarino foram-se 
embora numa sexta-feira, mas regressaram no sbado, com um tumulto. No domingo vieram mais.
     Formigaram por todos os lados,  procura de comer e de onde dormir, at que no se pde andar pela rua.
     Vieram mais. As mulheres que tinham partido quando morreu a povoao voltaram  taberna do Catarino. Estavam mais gordas e mais pintadas e trouxeram discos 
da moda que no recordavam nada a ningum. Vieram alguns dos antigos habitantes da aldeia. Tinham ido apodrecer-se de dinheiro noutro lugar e regressavam falando 
da sua fortuna, mas com a mesma roupa que tinham levado vestida. Vieram msicas e tmbolas, mesas de jogos de azar, adivinhadeiras e pistoleiros e homens com uma 
cobra enrolada no pescoo que vendiam o elixir da vida eterna. Continuaram a vir durante vrias semanas, mesmo depois de terem cado as primeiras chuvas e o mar 
se ter tornado turvo e desaparecido o cheiro.
     Entre os ltimos chegou um padre. Andava por todos os lados, a comer po molhado numa malga de caf com leite, e pouco a pouco ia proibindo tudo o que o tinha 
precedido: os jogos de azar, a msica nova e a maneira de a danar, e at o recente costume de dormir na praia. Uma tarde, em casa de Melchor, pronunciou um sermo 
sobre o cheiro do mar.
     - Dai graas aos cus, meus filhos - disse -, porque este  o cheiro de Deus.
     Algum o interrompeu.
     - Como pode sab-lo, padre, se ainda no o sentiu?
     - As Sagradas Escrituras - disse ele - so explcitas a respeito deste cheiro. Estamos numa povoao eleita.
     Tobas andava como um sonmbulo, de um lado para o outro, no meio da festa. Levou Clotilde, para conhecer o dinheiro. Imaginaram que jogavam somas enormes na 
roleta e a seguir fizeram as contas e sentiram-se imensamente ricos com o dinheiro que poderiam ter ganho. Mas, uma noite, no s eles, mas tambm a multido que 
ocupava o povoado, viram muito mais dinheiro junto do que o que poderia ter-lhes cabido na imaginao.
     Essa foi a noite em que veio o senhor Herbert. Apareceu de repente, ps uma mesa no meio da rua e em cima da mesa dois grandes bas cheios de notas at aos 
bordos. Havia tanto dinheiro que ao princpio ningum lhe prestou ateno, porque no podiam acreditar que fosse verdade. Mas, como o senhor Herbert se ps a tocar 
uma pequena sineta, as pessoas acabaram por lhe dar crdito e aproximaram-se, para ouvir.
     - Sou o homem mais rico da Terra - disse. - Tenho tanto dinheiro que j no sei onde met-lo. E, como, alm disso, tenho um corao to grande que j no me 
cabe dentro do peito, tomei a determinao de percorrer o mundo para resolver os problemas do gnero humano.
     Era grande e corado. Falava alto e sem pausas e movia ao mesmo tempo umas mos tbias e lnguidas que pareciam sempre acabadas de ser tratadas. Falou durante 
um quarto de hora, e descansou. Depois, voltou a agitar a sineta e comeou a falar outra vez. A meio do discurso, algum agitou um chapu, por entre a multido, 
e interrompeu-o.
     - Bem, mister, no fale tanto e comece a repartir o dinheiro.
     - Assim no - replicou o senhor Herbert. - Repartir o dinheiro, sem tom nem som, alm de ser um mtodo injusto, no teria nenhum sentido.
     Localizou com a vista o que o tinha interrompido e fez-lhe sinal para que se aproximasse. A multido abriu-lhe passagem.
     - Em vez disso - prosseguiu o senhor Herbert -, este impaciente amigo vai permitir-nos agora que expliquemos o mais equitativo sistema de distribuio da riqueza. 
- Estendeu uma mo e ajudou-o a subir. - Como te chamas?
     - Patrcio.
     - Muito bem, Patrcio - disse o senhor Herbert. - Como toda a gente, tu tens, desde h tempos, um problema que no podes resolver.
     Patrcio tirou o chapu e confirmou com a cabea.
     - Qual ?
     - Pois o meu problema  esse - disse Patrcio -, que no tenho dinheiro.
     - E de quanto precisas?
     - Quarenta e oito pesos.
     O senhor Herbert lanou uma exclamao de triunfo. "Quarenta e oito pesos", repetiu. A multido acompanhou-o num aplauso.
     - Muito bem, Patrcio - prosseguiu o senhor Herbert. -Agora diz-me uma coisa: que sabes fazer?
     - Muitas coisas.
     - Decide-te por uma - disse o senhor Herbert. - A que faas melhor.
     - Bem - disse Patrcio. - Sei fazer como os pssaros. Aplaudindo outra vez, o senhor Herbert dirigiu-se  multido.
     - Portanto, senhoras e senhores, o nosso amigo Patrcio, que imita extraordinariamente bem os pssaros, vai imitar quarenta e oito pssaros diferentes e resolver 
por essa forma o grande problema da sua vida.
     No meio do silncio assombrado da multido, Patrcio fez ento como os pssaros. Umas vezes assobiando, outras vezes com a garganta, fez como todos os pssaros 
conhecidos e completou o nmero com outros que ningum conseguiu identificar. No fim, o senhor Herbert pediu um aplauso e entregou-lhe quarenta e oito pesos.
     - E agora - disse - vo passando um por um. At amanh a esta mesma hora estou aqui para resolver problemas.
     O velho Jacob foi informado do acontecimento pelos comentrios da gente que passava diante da sua casa. A cada nova notcia o corao ia-se-lhe pondo grande, 
cada vez mais grande, at que o sentiu rebentar.
     - Que opinio tem o senhor deste gringo? - perguntou. Dom Mximo Gmez encolheu os ombros.
     - Deve ser um filantropo.
     - Se eu soubesse fazer alguma coisa - disse o velho Jacob -, agora poderia resolver o meu problemazinho.  coisa de pouco valor: vinte pesos.
     - Voc joga muito bem s damas - disse dom Mximo Gmez.
     O velho Jacob no pareceu prestar-lhe ateno. Mas, quando ficou s, embrulhou o tabuleiro e a caixa das peas num jornal e foi desafiar o senhor Herbert. Esperou 
pela sua vez at  meia-noite. Por fim, o senhor Herbert mandou levar os bas e despediu-se at  manh seguinte.
     No foi deitar-se. Apareceu na taberna do Catarino, com os homens que levavam os bas, e at ali o perseguiu a multido, com os seus problemas. Pouco a pouco 
foi-os resolvendo, e resolveu tantos que por fim s ficaram na taberna as mulheres e alguns homens com os seus problemas resolvidos. E, ao fundo do salo, uma mulher 
solitria que se abanava muito devagar com um carto de propaganda.
     - E tu - gritou-lhe o senhor Herbert -, qual  o teu problema?
     A mulher deixou de abanar-se.
     - A mim no me meta na sua brincadeira, mister - gritou, atravs do salo. - Eu no tenho problemas de nenhuma espcie e sou puta porque me d na gana.
     O senhor Herbert encolheu os ombros. Continuou a beber cerveja gelada, junto dos bas abertos,  espera de outros problemas. Transpirava. Pouco depois, uma 
mulher separou-se do grupo que a acompanhava na mesa e falou-lhe em voz muito baixa.
     Tinha um problema de quinhentos pesos.
     - Qual  o teu preo? - perguntou o senhor Herbert.
     - Cinco.
     - Imagina - disse o senhor Herbert. - So cem homens. - No tem importncia - disse ela. - Se consigo todo
     esse dinheiro junto, estes sero os ltimos cem homens da minha vida.
     Examinou-a. Era muito nova, de ossos frgeis, mas os seus olhos expressavam uma deciso simples.
     - Est bem - disse o senhor Herbert. - Vai para o quarto, que para l tos vou mandando, cada um com os seus cinco pesos.
     Saiu  porta da rua e agitou a sineta. s sete da manh, Tobas encontrou a loja do Catarino aberta. Estava tudo apagado. Meio adormecido e inchado de cerveja, 
o senhor Herbert controlava o ingresso dos homens no quarto da rapariga.
     Tobas tambm entrou. A rapariga conhecia-o e surpreendeu-se de v-lo no seu quarto.
     - Tu tambm?
     - Disseram-me para entrar - disse Tobas. - Deram-me cinco pesos e disseram-me: "No te demores".
     Ela tirou da cama o lenol empapado e pediu a Tobas que o segurasse de um lado. Pesava como tela. Espremeram-no, torcendo-o pelos extremos, at que recuperou 
o seu peso natural. Viraram o colcho, e o suor saa pelo outro lado. Tobas fez as coisas de qualquer maneira. Antes de sair ps os cinco pesos no monto de notas 
que ia crescendo ao p da cama.
     - Manda toda a gente que possas - recomendou-lhe o senhor Herbert -, a ver se acabamos com isto antes do meio-dia.
     A rapariga entreabriu a porta e pediu uma cerveja gelada. Estavam vrios homens  espera.
     - Quantos faltam? - perguntou.
     - Sessenta e trs - respondeu o senhor Herbert.
     O velho Jacob passou todo o dia a persegui-lo com o tabuleiro. Ao anoitecer conseguiu a sua vez, exps o seu problema, e o senhor Herbert aceitou. Puseram duas 
cadeiras e a mesinha sobre a mesa grande, em plena rua, e o velho Jacob comeou a partida. Foi a ltima jogada que conseguiu premeditar. Perdeu.
     - Quarenta pesos - disse o senhor Herbert -, e dou-lhe duas peas de vantagem.
     Voltou a ganhar. As suas mos mal tocavam nas peas. Jogou vendado, adivinhando a posio do adversrio, e ganhou sempre. A multido cansou-se de v-los. Quando 
o velho Jacob decidiu render-se, estava a dever cinco mil setecentos e quarenta e dois pesos com vinte e trs centavos.
     No se perturbou. Anotou a importncia num papel que guardou no bolso. Depois dobrou o tabuleiro, meteu as peas na caixa e embrulhou tudo no jornal.
     - Faa de mim o que quiser - disse -, mas deixe-me estas coisas. Prometo-lhe que passarei o resto da minha vida a jogar at lhe reunir este dinheiro.
     O senhor Herbert olhou para o relgio.
     - Tenho muita pena - disse. - O prazo acaba dentro de vinte minutos. - Esperou at se convencer de que o adversrio no encontraria a soluo. - No tem mais 
nada?
     - A honra.
     - Quero dizer- explicou o senhor Herbert -, qualquer coisa que mude de cor quando se lhe passe por cima uma broxa suja de tinta.
     - A casa - disse o velho Jacob, como se tivesse decifrado um enigma. - No vale nada, mas  uma casa.
     Foi desta maneira que o senhor Herbert ficou com a casa do velho Jacob. Ficou, alm disso, com as casas e propriedades de outros que tambm no puderam cumprir, 
mas ordenou uma semana de msicas, foguetes e acrobatas e ele mesmo dirigiu a festa.
     Foi uma semana memorvel. O senhor Herbert falou do maravilhoso destino da povoao, e at desenhou a cidade do futuro, com imensos edifcios de vidro e pistas 
de baile nas aoteias. Mostrou-a  multido. Olharam assombrados, procurando encontrar-se nos transeuntes coloridos pintados pelo senhor Herbert, mas estavam to 
bem vestidos que no conseguiram reconhecer-se. Doeu-lhes o corao de tanto o usar. Riam-se das ganas de chorar que sentiam em Outubro e viveram nas nebulosas da 
esperana, at que o senhor Herbert sacudiu a sineta e proclamou o termo da festa. S ento descansou.
     - Vai morrer com essa vida que leva - disse o velho Jacob.
     - Tenho tanto dinheiro - disse o senhor Herbert - que no h nenhuma razo para que morra.
     Deixou-se cair na cama. Dormiu dias e dias, roncando como um leo, e passaram tantos dias que a gente se cansou de o esperar. Tiveram de desenterrar caranguejos 
para comer. Os novos discos do Catarino tornaram-se to velhos que j ningum pde escut-los sem lgrimas, e teve de se fechar a taberna.
     Muito tempo depois de o senhor Herbert ter comeado a dormir, o padre bateu  porta do velho Jacob. A casa estava fechada por dentro.  medida que a respirao 
do adormecido ia gastando o ar, as coisas tinham ido perdendo o seu peso e algumas comeavam a flutuar.
     - Quero falar com ele - disse o padre.
     -  preciso esperar - disse o velho Jacob.
     - No disponho de muito tempo.
     - Sente-se, padre, e espere - insistiu o velho Jacob. - E, entretanto, faa-me o favor de falar comigo. H muito que no sei nada do mundo.
     - A populao est em debandada - disse o padre. -Dentro em pouco, a aldeia ser a mesma de antes. Essa  a nica novidade.
     - Voltaro - disse o velho Jacob - quando o mar voltar a cheirar a rosas.
     - Mas, entretanto,  preciso sustentar com alguma coisa a iluso dos que ficam - disse o padre. -  urgente comear a construo do templo.
     - Por isso veio procurar o senhor Herbert - disse o velho Jacob.
     -  verdade - disse o padre. - Os gringos so muito caritativos.
     - Ento, espere, padre - disse o velho Jacob. - Pode ser que acorde.
     Jogaram s damas. Foi uma partida longa e difcil, de muitos dias, mas o senhor Herbert no acordou.
     O padre deixou-se confundir pelo desespero. Andou por todos os lados, com um pratinho de cobre, pedindo esmolas para construir o templo, mas foi muito pouco 
o que conseguiu. De tanto suplicar foi-se tornando cada vez mais difano, os seus ossos comearam a encher-se de rudos, e num domingo elevou-se dois palmos acima 
do nvel do cho, mas ningum o soube. Ento ps a roupa numa maleta e noutra o dinheiro recolhido e despediu-se para sempre.
     - No voltar o cheiro - disse queles que tentaram dissuadi-lo. -  preciso enfrentar a evidncia de que a povoao caiu em pecado mortal.
     Quando o senhor Herbert acordou, a povoao era a mesma de antes. A chuva tinha fermentado o lixo que a multido deixou nas ruas e o solo estava outra vez rido 
e duro como um ladrilho.
     - Dormi muito - bocejou o senhor Herbert.
     - Sculos - disse o velho Jacob.
     - Estou morto de fome.
     - Toda a gente est assim - disse o velho Jacob. - No tem outro remdio seno ir  praia desenterrar caranguejos.
     Tobas encontrou-o esgaravatando na areia, com a boca cheia de espuma, e assombrou-se de que os ricos com fome se parecessem tanto com os pobres. O senhor Herbert 
no encontrou suficientes caranguejos. Ao entardecer, convidou Tobas para ir procurar alguma coisa para comer, no fundo do mar.
     - Oua - preveniu-o Tobas. - S os mortos sabem o que h l dentro.
     - Tambm o sabem os cientistas - disse o senhor Herbert. - Mais abaixo do mar dos naufrgios h tartarugas de carne deliciosa. Dispa-se e vamos.
     Foram. Nadaram primeiramente em linha recta e depois para baixo, muito fundo, at onde se acabou a luz do Sol, e a seguir a do mar, e as coisas eram unicamente 
visveis pela sua prpria luz. Passaram diante de uma povoao submergida, com homens e mulheres a cavalo, que giravam em torno do coreto da msica. Era um dia esplndido 
e havia flores de cores vivas nos terraos.
     - Afundou-se num domingo, por volta das onze da manh - disse o senhor Herbert. - Deve ter sido um cataclismo.
     Tobas desviou-se em direco da povoao, mas o senhor Herbert fez-lhe sinais para o seguir at ao fundo.
     - Ali h rosas - disse Tobas. - Quero que Clotilde as conhea.
     - Num outro dia voltas, com calma - disse o senhor Herbert. - Agora estou morto de fome.
     Descia como um polvo, com braadas amplas e sigilosas. Tobas, que fazia esforos para no o perder de vista, pensou que aquela devia ser a maneira de nadar 
dos ricos. Pouco a pouco foram deixando o mar das catstrofes comuns e entraram no mar dos mortos.
     Havia tantos que Tobas no acreditou ter visto alguma vez tanta gente no mundo. Flutuavam, imveis, de barriga para cima, a diferentes nveis, e todos tinham 
a expresso dos seres esquecidos.
     - So mortos muito antigos - disse o senhor Herbert. - Precisaram de sculos para conseguir este estado de repouso.
     Mais abaixo, em guas de mortos recentes, o senhor Herbert deteve-se. Tobas alcanou-o no momento em que passava em frente deles uma mulher muito jovem. Flutuava 
de costas, com os olhos abertos, perseguida por uma corrente de flores.
     O senhor Herbert ps o indicador na boca e permaneceu assim at terem passado as ltimas flores.
     -  a mulher mais formosa que vi na minha vida - disse.
     -  a esposa do velho Jacob - disse Tobas. - Parece cinquenta anos mais nova, mas  ela. Garanto.
     - Viajou muito - disse o senhor Herbert. - Leva atrs a flora de todos os mares do mundo.
     Chegaram ao fundo. O senhor Herbert deu vrias voltas sobre um solo que parecia de ardsia lavrada. Tobas seguiu-o. S quando se acostumou  penumbra da profundidade 
descobriu que ali estavam as tartarugas. Havia milhares, aplanadas no fundo e to imveis que pareciam petrificadas.
     - Esto vivas - disse o senhor Herbert -, mas dormem desde h milhes de anos.
     Virou uma. Com um impulso suave empurrou-a para cima e o animal adormecido escapou-se-lhe das mos e continuou subindo  deriva. Tobas deixou-a passar. Ento 
olhou para a superfcie e viu todo o mar ao contrrio.
     - Parece um sonho - disse.
     - Para o teu prprio bem - disse-lhe o senhor Herbert -, no contes isto a ningum. Imagina a desordem que haveria no mundo se as pessoas soubessem destas coisas.
     
     Era quase meia-noite quando voltaram  aldeia. Despertaram Clotilde, para que aquecesse a gua. O senhor Herbert degolou a tartaruga, mas foram precisos os 
trs para perseguir e matar outra vez o corao, que saiu dando saltos pelo ptio, quando a esquartejaram. Comeram at no poder respirar.
     - Bem, Tobas - disse ento o senhor Herbert -,  preciso enfrentar a realidade.
     - Certamente.
     - E a realidade - prosseguiu o senhor Herbert -  que esse cheiro no voltar nunca.
     - Voltar.
     - No voltar - interveio Clotilde -, entre outras coisas porque no veio nunca. Foste tu quem convenceu toda a gente.
     - Tu prpria o sentiste - disse Tobas.
     - Naquela noite eu estava meio atarantada - disse Clotilde. - Mas agora no tenho a certeza de nada que tenha que ver com este mar.
     - De maneira que me vou embora - disse o senhor Herbert. E acrescentou, dirigindo-se a ambos: - Tambm vocs deviam partir. H muitas coisas a fazer no mundo 
em vez de ficarem a passar fome nesta aldeia.
     Partiu. Tobas permaneceu no ptio, contando as estrelas at ao horizonte e descobriu que havia mais trs, desde o Dezembro anterior. Clotilde chamou-o para 
o quarto, mas ele no lhe deu ateno.
     - Vem para aqui, bruto - insistiu Clotilde. - H sculos que no fazemos como os coelhinhos.
     Tobas esperou um bom bocado. Quando por fim entrou, ela tinha voltado a adormecer. Semiacordou-a, mas estava to cansado que ambos confundiram as coisas e 
por fim s puderam fazer como as lombrigas.
     - Ests embobado - disse Clotilde, de mau humor. - Tenta pensar noutra coisa.
     - Estou a pensar noutra coisa.
     Ela quis saber em que era e ele decidiu contar-lhe, com a condio de que no o repetisse. Clotilde prometeu.
     - No fundo do mar - disse Tobas - h uma povoao de casinhas brancas com milhes de flores nos terraos.
     Clotilde levou as mos  cabea.
     - Ai, Tobas - exclamou. - Ai, Tobas, pelo amor de Deus, no vs comear agora, outra vez, com estas coisas.
     Tobas no voltou a falar. Chegou-se para a beira da cama e tentou dormir. No o pde fazer at ao amanhecer, quando mudou a brisa e os caranguejos o deixaram 
tranquilo.
     

     
     
     O afogado mais formoso do mundo
      
     As primeiras crianas que viram o promontrio obscuro e sigiloso que se aproximava pelo mar tiveram a iluso de que era um barco inimigo. Depois viram que no 
levava bandeiras nem mastreao e pensaram que fosse uma baleia. Mas, quando ficou varado na praia, tiraram-lhe os matagais de sargaos, os filamentos de medusas 
e os restos de cardumes e naufrgios que trazia em cima, e s ento descobriram que era um afogado.
     Tinham brincado com ele toda a tarde, enterrando-o e desenterrando-o na areia, quando algum os viu por acaso e deu a voz de alarme na povoao. Os homens que 
com ele carregaram at  casa mais prxima notaram que pesava mais que todos os mortos conhecidos, quase tanto como um cavalo, e convenceram-se de que talvez tivesse 
estado demasiado tempo  deriva e a gua se lhe tivesse metido dentro dos ossos. Quando o estenderam no cho viram que tinha sido muito maior que todos os homens, 
pois mal cabia na casa, mas pensaram que talvez a faculdade de continuar a crescer depois da morte estivesse na natureza de certos afogados. Tinha o cheiro do mar 
e s a forma permitia supor que era o cadver de um ser humano, porque a sua pele estava revestida de uma couraa de rmora e de lodo.
     No precisaram de limpar-lhe a cara para saber que era um morto alheio. A povoao tinha apenas umas vinte casas de tbuas, com ptios de pedras sem flores, 
dispersas no extremo de um cabo desrtico. A terra era to escassa que as mes andavam sempre com o temor de que o vento levasse as crianas, e os poucos mortos 
que lhes iam causando os anos tinham de atir-los nos despenhadeiros. Mas o mar era manso e prdigo e todos os homens cabiam em sete botes. Por isso, quando encontraram 
o afogado, bastou-lhes olharem-se uns aos outros para perceberem que estavam completos.
     Naquela noite no saram para trabalhar no mar. Enquanto os homens averiguavam se no faltava algum nas povoaes vizinhas, as mulheres ficaram a tratar do 
afogado. Tiraram-lhe o lodo com tampes de esparto, desenredaram-lhe do cabelo os abrolhos submarinos e rasparam-lhe a rmora com ferros de escamar peixe.  medida 
que o faziam, notaram que a sua vegetao era de oceanos remotos e de guas profundas e que as suas roupas estavam em farrapos, como se tivesse navegado por entre 
labirintos de corais. Notaram tambm que suportava a morte com altivez, pois no tinha o aspecto solitrio dos outros afogados do mar, nem to-pouco a catadura srdida 
e indigente dos afogados fluviais. Mas s quando acabaram de o limpar tiveram conscincia da espcie de homem que era, e ento ficaram sem alento. No somente era 
o mais alto, o mais forte, o mais viril e o melhor armado que jamais tinham visto, como ainda, apesar de o estarem a ver, no lhes cabia na imaginao.
     No encontram na povoao uma cama bastante grande para estend-lo nem uma mesa bastante slida para vel-lo. No lhe serviram as calas de festa dos homens 
mais altos nem as camisas dominicais dos mais corpulentos, nem os sapatos do mais bem plantado. Fascinadas pela sua desproporo e formosura, as mulheres decidiram 
ento fazer-lhe umas calas com um bom pedao de vela carangueja e uma camisa de cambraia de noiva, para que pudesse continuar a sua morte com dignidade. Enquanto 
cosiam, sentadas em crculo, contemplando o cadver entre dois alinhavos, parecia-lhes que o vento no tinha sido nunca to tenaz, nem o Caribe tinha estado nunca 
to ansioso como naquela noite, e supunham que essas mudanas tinham alguma coisa a ver com o morto. Pensavam que, se aquele homem magnfico tivesse vivido na povoao, 
a sua casa teria tido as portas mais largas, o tecto mais alto e o sobrado mais firme e a armao da sua cama teria sido feita de cavernas mestras, com pernos de 
ferro, e a sua mulher teria sido a mais feliz. Pensavam que haveria tido tanta autoridade que teria tirado os peixes do mar apenas chamando-os pelos seus nomes, 
e teria posto tanto interesse no trabalho que teria feito brotar mananciais entre as pedras mais ridas, e teria podido semear flores nos despenhadeiros. Compararam-no, 
em segredo, com os seus prprios homens, pensando que no seriam capazes de fazer em toda uma vida o que aquele era capaz de fazer numa noite, e terminaram por repudi-los 
no fundo dos seus coraes, como os seres mais esqulidos e mesquinhos da Terra. Andavam extraviadas por esses ddalos de fantasia, quando a mais velha das mulheres, 
que por ser a mais velha tinha contemplado o afogado com menos paixo do que compaixo, suspirou:
     - Tem cara de chamar-se Esteban.
     Era verdade.  maioria bastou olh-lo outra vez para compreenderem que no podia ter outro nome. As mais obstinadas, que eram as mais jovens, mantiveram-se 
com a iluso de que, depois de lhe vestirem a roupa, estendido entre flores e com uns sapatos de polimento, poderia chamar-se Lautaro. Mas foi uma iluso v. O pano 
foi insuficiente, as calas, mal cortadas e pior cosidas, ficaram-lhe estreitas e as foras ocultas do seu corao faziam saltar os botes da camisa. Depois da meia-noite 
tornaram-se mais finos os assobios do vento e o mar caiu na modorra da quarta-feira. O silncio acabou com as ltimas dvidas: era Esteban. As mulheres que o tinham 
vestido, as que o tinham penteado, as que lhe tinham cortado as unhas e raspado a barba, no puderam reprimir um estremecimento de compaixo, quando tiveram de resignar-se 
a deix-lo estendido pelos pavimentos. Foi ento que compreenderam quanto devia ter sido infeliz, com aquele corpo descomunal, se mesmo depois de morto o estorvava. 
Viram-no condenado, em vida, a passar de lado pelas portas, a magoar-se com as traves, a permanecer de p durante as visitas, sem saber o que fazer com as suas delicadas 
e rosadas mos de boi-marinho, enquanto a dona da casa procurava a cadeira mais resistente e lhe suplicava, morta de medo, sente-se aqui Esteban, faa favor, e ele, 
encostado s paredes, sorrindo, no se preocupe, senhora, estou bem assim, com os calcanhares em carne viva e as costas escaldadas de tantas vezes repetir a mesma 
coisa em todas as visitas, no se preocupe, senhora, estou bem assim, s para no passar pela vergonha de desfazer a cadeira, e talvez sem nunca ter sabido que aqueles 
que lhe diziam no te vs embora Esteban, espera, pelo menos, at que sirva o caf, eram os mesmos que depois cochichavam j saiu o bobo grande, que bom, j saiu 
o tonto formoso. Isto pensavam as mulheres diante do cadver um pouco antes do amanhecer. Mais tarde, quando lhe taparam a cara com um leno, para que a luz no 
o incomodasse, viram-no to morto para sempre, to parecido com os seus homens, que se lhes abriram as primeiras gretas de lgrimas no corao. Foi uma das mais 
jovens a que comeou a soluar. As outras, encorajando-se entre si, passaram dos suspiros aos lamentos e quanto mais soluavam mais desejos sentiam de chorar, porque 
o afogado se lhes ia tornando cada vez mais Esteban, at que o choraram tanto que foi o homem mais desamparado da Terra, o mais manso e o mais diligente, o pobre 
Esteban. De tal maneira que, quando os homens voltaram com a notcia de que o afogado tambm no era das povoaes vizinhas, elas sentiram um espao de jbilo, entre 
as lgrimas.
     - Bendito seja Deus! - suspiraram. -  nosso!
     Os homens convenceram-se de que aqueles espaventos no passavam de frivolidades de mulher. Cansados pelas tortuosas averiguaes da noite, a nica coisa que 
queriam era livrar-se de vez do estorvo do intruso antes que pegasse o sol valente daquele dia rido e sem vento. Improvisaram umas cangalhas com restos de traquetes 
e espichas e amarraram-nas com sobrequilhas de altura, para que resistissem ao peso do corpo at aos despenhadeiros. Quiseram acorrentar-lhe aos tornozelos uma ncora 
de barco mercante, para que fundeasse sem tropeos nos mares mais profundos, onde os peixes so cegos e os bzios morrem de nostalgia, de maneira que as ms correntes 
no o fossem devolver  beira-mar, como tinha sucedido com outros corpos. Mas, quanto mais se apressavam, de mais coisas se lembravam as mulheres para perder o tempo. 
Andavam como galinhas assustadas, espiolhando amuletos de mar nos arcazes, umas estorvando aqui porque queriam pr ao afogado os escapulrios do bom vento, outras 
estorvando ali para lhe porem uma pulseira de orientao, e, ao cabo de tanto tira-te da mulher, pe-te onde no estorves, olha que quase me fazes cair sobre o 
defunto, aos homens subiram-lhes ao fgado as suspiccias e comearam a resmungar que qual seria o objectivo de tanta ferraria de altar-mor para um forasteiro, se 
por mais pregos e caldeirinhas que levasse com ele iam mastig-lo os tubares, mas elas continuavam remexendo as suas relquias de pacotilha, levando e trazendo, 
tropeando, enquanto se lhes ia em suspiros o que no se lhes ia em lgrimas, de tal maneira que os homens acabaram por disparatar que desde quando se viu semelhante 
alvoroo por um afogado  deriva, um afogado de ningum, um fiambre de merda. Uma das mulheres, mortificada por tanta insensibilidade, tirou ento o leno da cara 
do cadver, e tambm os homens ficaram sem respirao.
     Era Esteban. No foi preciso repeti-lo para que o reconhecessem. Se lhes tivessem dito Sir Walter Raleigh, porventura, at eles se teriam impressionado com 
o seu acento de gringo, com o seu papagaio no ombro, com o seu arcabuz de matar canibais, mas Esteban s podia ser um no mundo, e ali estava estendido como um svel, 
sem botins, com umas calas de sete-mesinho e essas unhas cascalhosas que s podiam cortar-se  faca. Bastou que lhe tirassem o leno da cara para se perceber que 
estava envergonhado, que no tinha a culpa de ser to grande, nem to pesado nem to formoso, e, se tivesse sabido que aquilo ia acontecer, teria procurado um lugar 
mais discreto para afogar-se, a srio, ter-me-ia amarrado eu mesmo uma ncora de galeo ao pescoo e teria tropeado como quem no quer a coisa nos despenhadeiros, 
para no andar agora a estorvar com este morto de mircoles (Forma menos grosseira que mierda. Emprega-se por as primeiras letras serem iguais. (N. da T.)) como 
vocs dizem, para no incomodar ningum com esta porcaria de fiambre que no tem nada que ver comigo. Havia tanta verdade na sua maneira de estar que at os homens 
mais desconfiados, os que achavam amargas as minuciosas noites do mar, temendo que as suas mulheres se cansassem de sonhar com eles para sonhar com os afogados, 
at esses, e outros mais duros, estremeceram at  medula com a sinceridade de Esteban.
     Foi por isso que lhe fizeram os funerais mais esplndidos que podiam conceber-se para um afogado enjeitado.
     Algumas mulheres que tinham ido buscar flores vizinhas regressaram com outras que no acreditaram no que lhes contavam, e estas foram buscar mais flores e viram 
o morto, e levaram mais e mais, at que houve tantas flores e tanta gente que mal se podia caminhar.  ltima hora custou-lhes devolv-lo rfo s guas, e elegeram-lhe 
um pai e uma me entre os melhores, e outros fizeram-se-lhe irmos, tios e primos, de maneira que atravs dele todos os habitantes da povoao acabaram por ser parentes 
entre si. Alguns marinheiros que ouviram o pranto  distncia perderam a certeza do rumo, e soube-se de um que se fez amarrar ao mastro maior, recordando antigas 
fbulas de sereias. Enquanto discutiam pelo privilgio de lev-lo aos ombros tiveram a conscincia, pela primeira vez, da desolao das suas ruas, da aridez dos 
seus ptios, da estreiteza dos seus sonhos, perante o esplendor e a formosura do afogado. Largaram-no sem ncora, para que voltasse, se quisesse e quando o quisesse, 
e todos retiveram a respirao durante a fraco de sculos que demorou a queda do corpo at ao abismo. No tiveram necessidade de olhar-se uns aos outros para se 
aperceberem de que j no estavam completos, nem voltariam a est-lo jamais. Mas tambm sabiam que tudo seria diferente a partir desse momento, que as suas casas 
iam ter as portas mais largas, os tectos mais altos, os pavimentos mais firmes, para que a recordao de Esteban pudesse andar por todos os lados sem tropear com 
as traves, e que ningum se atrevesse a cochichar de futuro, j morreu o bobo grande, que pena, j morreu o tonto formoso, porque eles iam pintar as fachadas das 
casas com cores alegres para eternizar a memria de Esteban e iam partir-se o espinhao escavando mananciais nas pedras e semeando flores nos despenhadeiros, para 
que nos amanheceres dos anos vindouros os passageiros dos grandes navios acordassem sufocados por um cheiro de jardins no alto mar e o capito tivesse de descer 
do seu castelo de popa, com o seu astrolbio, a sua estrela polar e a sua fileira de medalhas de guerra, e, apontando para o promontrio de rosas no horizonte do 
Caribe, dissesse, em catorze idiomas, olhem para ali, de onde o vento  agora to manso que fica a dormir debaixo das camas, ali, onde o Sol brilha tanto que os 
girassis no sabem para que lado girar, sim, ali,  a povoao de Esteban.
     

     
     
     Morte constante para alm do amor.
      
     Ao senador Onsimo Snchez faltavam-lhe seis meses e onze dias para morrer quando encontrou a mulher da sua vida. Conheceu-a no Rosal del Virrey, uma povoaozinha 
ilusria, que de noite era um abrigo furtivo para os navios de longo curso dos contrabandistas e, em contrapartida, em pleno sol parecia a curva mais intil do deserto, 
frente a um mar rido e sem rumos, e to afastado de tudo que ningum teria suspeitado que ali vivesse algum capaz de torcer o destino de ningum. At o seu nome 
parecia uma zombaria, pois a nica rosa que se viu naquela povoao levou-a o prprio senador Onsimo Snchez na mesma tarde em que conheceu Laura Farina.
     Foi uma paragem iniludvel na campanha eleitoral de cada quatro anos. Pela manh tinham chegado os furges com a farndola. Depois chegaram os camies com os 
ndios de aluguer que levavam pelos povoados para completar as multides dos actos pblicos. Pouco antes das onze, com a msica e os foguetes e os guardas de campo 
da comitiva, chegou o automvel ministerial de cor de refresco de morango. O senador Onsimo Snchez estava plcido e sem tempo dentro do carro refrigerado, mas 
logo que abriu a porta estremeceu-o um sopro de fogo e a sua camisa de seda natural ficou empapada de uma sopa lvida e sentiu-se muitos anos mais velho e mais s 
do que nunca. Na vida real acabava de completar os quarenta e dois, tinha obtido com distino o diploma de engenheiro metalrgico em Gotinga e era um leitor perseverante, 
ainda que sem muita sorte, dos clssicos latinos mal traduzidos. Estava casado com uma alem radiante, de quem tinha cinco filhos, e todos estavam felizes na sua 
casa, e ele tinha sido o mais feliz de todos at que lhe tinham anunciado, trs meses antes, que estaria morto para sempre no prximo Natal.
     Enquanto se acabavam os preparativos da manifestao pblica, o senador conseguiu ficar s, uma hora, na casa que lhe tinham reservado para descansar. Antes 
de deitar-se, ps na gua de beber uma rosa natural que tinha conservado viva atravs do deserto, almoou os cereais de dieta que trazia consigo, para iludir as 
repetidas fritadas de chibo que o esperavam no resto do dia, e tomou vrias plulas analgsicas antes da hora prevista, para que o alvio lhe chegasse antes da dor. 
A seguir ps o ventilador elctrico muito perto da rede e estendeu-se nu, durante quinze minutos, na penumbra da rosa, fazendo um grande esforo de distraco mental 
para no pensar na morte enquanto dormitava. Alm dos mdicos, ningum sabia que estava condenado a um final previsto, pois tinha decidido padecer s o seu segredo, 
sem nenhuma mudana de vida, e no por soberba, mas sim por pudor.
     Sentia-se com um domnio completo do seu alvedrio quando voltou a aparecer em pblico, s trs da tarde, repousado e limpo, com umas calas de linho cru e uma 
camisa com flores pintadas, e com a alma bem disposta pelas plulas contra a dor. No obstante, a eroso da morte era muito mais prfida do que ele supunha, pois, 
ao subir para a tribuna, sentiu um extraordinrio desprezo por aqueles que se disputaram a sorte de lhe apertar a mo e no se compadeceu, como noutros tempos, das 
recuas de ndios descalos que mal podiam resistir s brasas de salitre da pequena praa estril. Acalmou os aplausos com uma ordem da mo, quase com raiva, e comeou 
a falar sem gestos, com os olhos fixos no mar que suspirava de calor.
     A sua voz pausada e profunda tinha a qualidade da gua em repouso, mas o discurso aprendido de cor e tantas vezes repetido no lhe tinha sido inspirado para 
dizer a verdade, mas por oposio a uma sentena fatalista do livro quarto dos pensamentos de Marco Aurlio.
     - Estamos aqui para derrotar a natureza - comeou, contra todas as suas convices. - Deixaremos de ser os enjeitados da ptria, os rfos de Deus, no reino 
da sede e da intemprie, os exilados na nossa prpria terra. Seremos outros, senhoras e senhores, seremos grandes e felizes.
     Eram as frmulas do seu circo. Enquanto falava, os seus ajudantes lanavam para o ar punhados de passarinhos de papel e os falsos animais adquiriam vida, revoluteavam 
sobre a tribuna de tbuas e afastavam-se pelo mar. Ao mesmo tempo, outros tiravam dos furges umas rvores de teatro com folhas de feltro e plantavam-nas por detrs 
da multido, no solo de salitre. Por fim armaram uma frontaria de carto, com casas fingidas de ladrilhos vermelhos e janelas de vidro, e taparam com ela as cabanas 
miserveis da vida real.
     O senador prolongou o discurso, com duas citaes em latim, para dar tempo  farsa. Prometeu as mquinas de chover, os viveiros portteis de animais de mesa, 
os leos da felicidade que fariam crescer legumes no salitre e cachos de amores-perfeitos nas janelas. Quando viu que o seu mundo de fico estava terminado, apontou-o 
com o dedo.
     - Assim seremos, senhoras e senhores - gritou. - Olhem. Assim seremos.
     O pblico virou-se. Um transatlntico de papel pintado passava por detrs das casas, e era mais alto que as casas mais altas da cidade de artifcio. S o prprio 
senador reparou que,  fora de ser armada e desarmada e levada de um lado para outro, tambm a cidade de carto sobreposta estava carcomida pela intemprie e era 
quase to pobre, poeirenta e triste como o Rosal del Virrey.
     Nelson Farina no foi cumprimentar o senador, pela primeira vez em doze anos. Escutou o discurso na sua rede, entre as fraces da sesta, sob a enramada fresca 
de uma casa de tbuas por polir que ele tinha construdo com as mesmas mos de boticrio com que esquartejou a sua primeira mulher. Tinha-se evadido da penitenciria 
de Caiena e apareceu em Rosal del Virrey num barco carregado de papagaios inocentes, com uma negra formosa e blasfemadora que conheceu em Paramaribo e de quem teve 
uma filha. A mulher morreu de morte natural pouco tempo depois e no teve a sorte da outra, cujos pedaos alimentaram a sua prpria horta de couves-flores, porque 
a enterraram inteira e com o seu nome de holandesa no cemitrio local. A filha tinha herdado a sua cor e os seus tamanhos e os olhos amarelos e atnitos do pai, 
e este tinha razes para supor que estava a criar a mulher mais bela do mundo.
     Desde que conheceu o senador Onsimo Snchez na primeira campanha eleitoral, Nelson Farina tinha suplicado a sua ajuda para obter um falso bilhete de identidade 
que o pusesse a salvo da justia. O senador, amvel mas firme, tinha-lho negado. Nelson Farina no desistiu durante vrios anos, e cada vez que se lhe proporcionava 
uma ocasio repetia a diligncia com uma petio diferente. Mas recebeu sempre a mesma resposta. De maneira que daquela vez deixou-se ficar na rede, condenado a 
apodrecer-se vivo naquela ardente guarida de corsrios. Quando ouviu os aplausos finais esticou a cabea, e por cima das estacas da cerca viu o avesso da farsa: 
os espeques dos edifcios, as armaes das rvores, os ilusionistas escondidos que empurravam o transatlntico. Cuspiu o seu rancor.
      - Merde - disse -, c'est le Blacaman de la politique. Depois do discurso, como de costume, o senador deu um
     passeio pelas ruas da povoao, por entre a msica e os foguetes, e assediado pela gente do povoado, que lhe contava as suas dificuldades. O senador escutava-os 
de boa vontade e encontrava sempre uma maneira de consolar todos sem lhes fazer favores difceis. Uma mulher encarrapitada no telhado de uma casa, entre os seus 
seis filhos menores, conseguiu fazer-se ouvir por cima do alvoroo e dos estampidos de plvora.
     - Eu no peo muito, senador - disse -, a no ser um burro para trazer gua do Poo do Enforcado.
     O senador observou as seis crianas esqulidas.
     - Que  que aconteceu ao teu marido? - perguntou.
     - Foi procurar destino na ilha de Aruba - respondeu a mulher, bem disposta - e o que encontrou foi uma forasteira daquelas que pem diamantes nos dentes.
     A resposta provocou um estrondo de gargalhadas.
     - Est bem - decidiu o senador -, ters o teu burro. Pouco depois, um ajudante seu levou a casa da mulher um
     burro de carga, nas costas do qual tinham escrito com pintura eterna um manifesto eleitoral, para que ningum se esquecesse de que era uma ddiva do senador.
     No breve trajecto da rua fez outros gestos menores e, alm disso, deu uma colherada a um doente que tinha mandado pr a cama na porta da casa para v-lo passar. 
Na ltima esquina, por entre as estacas do ptio, viu Nelson Farina na rede e pareceu-lhe cinzento e murcho, mas cumprimentou-o sem afecto:
     - Como est?
     Nelson Farina virou-se na rede e deixou-o ensopado no mbar triste do seu olhar.
      - Moi, vous savez - disse.
     A sua filha apareceu no ptio, ao ouvir a troca de palavras. Trazia vestida uma bata cubana vulgar e usada e tinha a cabea enfeitada com laos de fitas de 
cores e a cara pintada para o sol, mas mesmo naquele estado de negligncia era possvel imaginar que no havia outra mais bela no mundo. O senador ficou sem alento.
     - Porra - suspirou, assombrado -, as tolices de que Deus se lembra!
     Nessa noite Nelson Farina vestiu a filha com as suas melhores roupas e mandou-a ao senador. Dois guardas armados de rifles, que cabeceavam de calor na casa 
emprestada, mandaram-na esperar na nica cadeira do vestbulo.
     O senador estava no quarto contguo, reunido com os principais do Rosal del Virrey, que tinha convocado para cantar-lhes as verdades que ocultava nos discursos. 
Eram to parecidos com os que o ajudavam sempre em todas as povoaes do deserto que o prprio senador sentia o enfarte da mesma sesso todas as noites. Tinha a 
camisa ensopada de suor e tentava sec-la sobre o corpo com a brisa quente do ventilador elctrico, que zumbia como um moscardo na modorra do quarto.
     - Ns, certamente, no comemos passarinhos de papel - disse. - Vocs e eu sabemos que no dia em que haja rvores e flores nesta latrina de chibos, no dia em 
que haja sveis em vez de vermes nos poos, nesse dia tanto vocs como eu no temos nada a fazer aqui. De acordo?
     Ningum respondeu. Enquanto falava, o senador tinha arrancado um cromo do calendrio e tinha feito com as mos uma borboleta de papel. P-la na corrente do 
ventilador, sem nenhuma inteno, e a borboleta revoluteou dentro do quarto e depois saiu pela porta entreaberta. O senador continuou a falar com um domnio sustentado 
pela cumplicidade da morte.
     - Ento - disse - no preciso de repetir-lhes o que j sabem de sobras: que a minha reeleio  um negcio melhor para vocs do que para mim, porque eu estou 
farto de guas podres e de suor de ndios, ao passo que vocs vivem disso.
     Laura Farina viu sair a borboleta de papel. S ela a viu, porque os guardas do vestbulo tinham adormecido nos escanos abraados aos fuzis. Depois de ter dado 
vrias voltas, a enorme borboleta litografada desdobrou-se completamente, esborrachou-se contra a parede e a ficou pegada. Laura Farina tentou arranc-la com as 
unhas. Um dos guardas, que acordou com os aplausos no quarto contguo, reparou na sua tentativa intil.
     - No se pode arrancar - disse entre sonhos. - Est pintada na parede.
     Laura Farina tornou a sentar-se quando comearam a sair os homens da reunio. O senador permaneceu na porta do quarto com a mo na aldraba e s reparou em Laura 
quando o vestbulo ficou desocupado.
     - Que fazes aqui?
      - C'est de la part de mon pre - disse ela.
     O senador compreendeu. Observou atentamente os guardas sonolentos, depois observou atentamente Laura Farina, cuja beleza inverosmil era mais imperiosa que 
a sua dor, e ento resolveu que a morte decidisse por ele.
     - Entra - disse-lhe.
     Laura Farina ficou maravilhada na porta do quarto: milhares de notas de banco flutuavam no ar, esvoaando como a borboleta. Mas o senador apagou o ventilador, 
e as notas ficaram sem ar, e pousaram-se sobre as coisas do quarto.
     - J vs - sorriu -, at a merda voa.
     Laura Farina sentou-se num tamborete de estudante. Tinha a pele lisa e tendida, com a mesma cor e a mesma densidade solar do petrleo cru, e os seus cabelos 
eram de crinas de poldra, e os seus olhos imensos eram mais claros que a luz. O senador seguiu o fio do seu olhar e encontrou no fim a rosa maltratada pelo salitre.
     -  uma rosa - disse.
     - Sim - disse ela, com um vestgio de perplexidade -, conheci-as em Riohacha.
     O senador sentou-se numa cama de campanha, falando das rosas, enquanto desabotoava a camisa. Sobre o lado, onde ele supunha que estava o corao dentro do peito, 
tinha a tatuagem corsria de um corao atravessado por uma flecha. Atirou para o cho a camisa molhada e pediu a Laura Farina que o ajudasse a tirar as botas.
     Ela ajoelhou-se diante do catre. O senador continuou a estud-la, pensativo, e, enquanto lhe desapertava os atacadores, perguntou-se para qual dos dois seria 
a m sorte daquele encontro.
     - s uma criana - disse.
     - No acredite - disse ela. - Vou completar dezanove em Abril.
     O senador interessou-se.
     - Em que dia?
     - A onze - disse ela.
     O senador sentiu-se melhor.
     - Somos Aries - disse. E acrescentou, sorrindo: -  o signo da solido.
     Laura Farina no lhe prestou ateno, pois no sabia o que fazer com as botas. O senador, por seu lado, no sabia o que fazer com Laura Farina, porque no estava 
habituado aos amores imprevistos, e, alm disso, estava consciente de que aquele tinha origem na indignidade. S para ganhar tempo para pensar, prendeu Laura entre 
os joelhos, abraou-a pela cintura e estendeu-se de costas no catre. Ento compreendeu que ela estava nua por debaixo do vestido, porque o corpo exalou uma fragrncia 
obscura de animal de monte, mas tinha o corao assustado e a pele aturdida por um suor glacial.
     - Ningum gosta de ns - suspirou ele.
     Laura Farina quis dizer alguma coisa, mas o ar apenas lhe chegava para respirar. Deitou-a ao seu lado, para a ajudar, apagou a luz e o aposento ficou na penumbra 
da rosa. Ela abandonou-se  misericrdia do seu destino. O senador acariciou-a lentamente, procurou-a com a mo, mal lhe tocando, mas onde esperava encontr-la, 
topou com um estorvo de ferro.
     - Que tens a?
     - Um aloquete - disse ela.
     - Que disparate! - disse o senador, furioso, e perguntou o que sabia de sobras: - Onde est a chave?
     Laura Farina respirou, aliviada.
     - Tem-na o meu pai - respondeu. - Disse-me que lhe dissesse a si que a mande buscar por um mensageiro e que lhe mande com ele uma promessa escrita de que lhe 
vai resolver a situao.
     O senador ps-se tenso. "Francesote cabro", murmurou, indignado. Depois cerrou os olhos para relaxar-se e encontrou-se consigo prprio na obscuridade. "Recorda 
- recordou - que sejas tu ou outro qualquer, estars morto dentro de um tempo muito breve e que pouco depois no restar de vs nem o nome." Esperou que passasse 
o calafrio.
     - Diz-me uma coisa - perguntou ento -: o que ouviste dizer de mim?
     - A verdade, verdadinha?
     - A verdade, verdadinha.
     - Bem - atreveu-se Laura Farina -, dizem que o senhor  pior do que os outros, porque  diferente.
     O senador no se perturbou. Manteve um silncio grande, com os olhos fechados, e quando voltou a abri-los parecia regressar dos seus instintos mais recnditos.
     - Que merda! - decidiu -, diz ao cabro do teu pai que lhe vou resolver o assunto.
     - Se quer, vou eu mesma buscar a chave - disse Laura Farina.
     O senador reteve-a.
     - Esquece-te da chave - disse -, e dorme um bocado comigo.  bom estar com algum quando se est s.
     Ento ela deitou-o no seu ombro com os olhos fixos na rosa. O senador abraou-a pela cintura, escondeu a cara na sua axila de animal de monte e sucumbiu ao 
terror. Seis meses e onze dias depois havia de morrer nessa mesma posio, pervertido e repudiado pelo escndalo pblico de Laura Farina e chorando com a raiva de 
morrer sem ela.
     

     
     
     A ltima viagem do navio fantasma
      
     "Agora vo ver quem sou eu", disse consigo mesmo, com o seu novo vozeiro de homem, muitos anos depois de ter visto pela primeira vez o transatlntico imenso, 
sem luzes e sem rudos, que uma noite passou diante da povoao como um grande palcio desabitado, mais comprido que toda a povoao e muito mais alto que a torre 
da sua igreja, e continuou a navegar nas trevas em direco da cidade colonial fortificada contra os corsrios, no outro lado da baa, com o seu antigo porto negreiro 
e farol giratrio, cujas lgubres cruzes de luz, de quinze em quinze segundos, transfiguravam a povoao num acampamento lunar de casas fosforescentes e ruas de 
desertos vulcnicos, e, apesar de ele ser nessa altura um rapazinho sem vozeiro de homem, mas com autorizao da sua me para escutar at muito tarde na praia as 
harpas nocturnas do vento, ainda podia recordar como se o estivesse a ver que o transatlntico desaparecia quando a luz do farol lhe dava de lado e tornava a aparecer 
quando a luz acabava de passar, de maneira que era um navio intermitente que ia aparecendo e desaparecendo em direco da entrada da baa, procurando com tenteies 
de sonmbulo as bias que assinalavam o canal do porto, at que alguma coisa deve ter falhado nas suas agulhas de orientao, porque derivou em direco dos escolhos, 
tropeou, saltou em pedaos e afundou-se sem um nico rudo, apesar de que semelhante encontro com os recifes era para produzir um fragor de ferros e uma exploso 
de mquinas que gelassem de pavor os drages mais adormecidos na selva pr-histrica que comeava nas ltimas ruas da cidade e acabava no outro lado do mundo, de 
tal maneira que ele prprio se convenceu de que era um sonho, durante todo o dia seguinte, quando viu o aqurio radiante da baa, a desordem de cores das barracas 
dos negros nas colinas do porto, as escunas dos contrabandistas das Guaianas recebendo o seu carregamento de papagaios inocentes com o papo cheio de diamantes, pensou, 
adormeci a contar as estrelas e sonhei com esse barco enorme, claro, ficou to convencido que no o contou a ningum nem voltou a recordar-se da viso at  mesma 
noite do Maro seguinte, quando andava  procura de indcios de delfins no mar e o que encontrou foi o transatlntico ilusrio, sombrio, intermitente, com o mesmo 
destino errado da primeira vez, com a diferena de que ele estava nessa altura to certo de estar acordado que correu a cont-lo a sua me, e ela passou trs semanas 
a gemer de desiluso, porque se te esto a apodrecer os miolos de tanto andares s avessas, dormindo de dia e andando  aventura de noite, como as pessoas de m 
vida, e como teve de ir  cidade por esses dias  procura de alguma coisa cmoda em que se sentar a pensar no marido morto, pois  sua cadeira de balouar tinham-se 
gasto os balanceiros em onze anos de viuvez, aproveitou a ocasio para pedir ao homem do bote que passasse pelos recifes de maneira que o filho pudesse ver o que, 
com efeito, viu na vitrina do mar, os amores das mantas em primaveras de esponjas, os capates rosados e as corvinas azuis mergulhando nos poos de guas mais tenras 
que havia dentro das guas, e at as cabeleiras errantes dos afogados de algum naufrgio colonial, mas nem vestgios de transatlnticos afundados, nem pensar nisso, 
e, contudo, ele continuou to convencido que a sua me prometeu acompanh-lo na vspera do prximo Maro, de certeza, sem saber que j a nica coisa certa que havia 
no seu futuro era uma poltrona dos tempos de Francis Drake que comprou num leilo de turcos, na qual se sentou a descansar naquela mesma noite, suspirando, meu pobre 
Holofernes, se visses que bem que se pensa em ti, sobre estes forros de veludo e com estes brocados de tmulo de rainha, mas quanto mais evocava o marido morto mais 
lhe borbulhava e se lhe tornava de chocolate o sangue no corao, como se em vez de estar sentada estivesse a correr, empapada de calafrios e com a respirao cheia 
de terra, at que ele voltou de madrugada e a encontrou morta na poltrona, ainda quente, mas j meio apodrecida, como os picados pelas cobras, o mesmo que aconteceu 
depois a outras quatro senhoras, antes de terem atirado ao mar a poltrona assassina, muito longe, onde no fizesse mal a ningum, pois tinham-na usado tanto atravs 
dos sculos que se lhe tinha gasto a faculdade de produzir descanso, de maneira que ele teve de habituar-se  sua miservel rotina de rfo, apontado por todos como 
o filho da viva que levou para a povoao o trono da desgraa, vivendo no tanto da caridade pblica como do peixe que roubava nos botes, enquanto a voz se lhe 
ia tornando de bramante e sem lembrar-se mais das suas vises de antanho, at outra noite de Maro em que olhou por acaso para o mar, e subitamente, minha me, l 
est a descomunal baleia de amianto, a besta varrasca, venham v-la, provocando tal alvoroo de ladridos de ces e pnicos de mulher que at os homens mais velhos 
se lembraram dos espantos dos seus bisavs e meteram-se debaixo da cama, supondo que tinha voltado William Dampier, mas os que se atiraram para a rua no se deram 
ao trabalho de ver a forma inverosmil que naquele instante tornava a perder o oriente e se desfazia no desastre anual, mas quase o mataram com pancadas e deixaram-no 
to mal torcido que foi ento quando ele se disse, babando de raiva, agora vo ver quem sou eu, mas teve a precauo de no compartilhar com ningum a sua determinao 
e passou o ano inteiro com a ideia fixa, agora vo ver quem sou eu, esperando que fosse outra vez a vspera das aparies para fazer o que fez, j est, roubou um 
bote, atravessou a baa e passou a tarde esperando a sua hora grande nas anfractuosidades do porto negreiro, entre a salmoura humana do Caribe, mas to absorto na 
sua aventura que no se deteve, como de costume, diante das lojas dos hindus para ver os mandarins de marfim talhados na presa inteira do elefante, nem troou dos 
negros holandeses nos seus velocpedes ortopdicos, nem se assustou, como das outras vezes, com os malaios de pele de cobra que tinham dado a volta ao mundo, seduzidos 
pela quimera de uma estalagem secreta onde vendiam filetes de brasileiras na brasa, porque no deu ateno a nada enquanto a noite no lhe caiu em cima com todo 
o peso das estrelas e a selva exalou uma fragrncia doce de gardnias e salamandras apodrecidas, e l estava ele remando no bote roubado para a entrada da baa, 
com a lmpada apagada, para no alvoroar a guarda fiscal, idealizado de quinze em quinze segundos pela pancada verde do farol e tornado outra vez humano pela escurido, 
sabendo que estava perto das bias que sinalizavam o canal do porto, no s porque visse cada vez mais intenso o seu fulgor opressivo, mas porque a respirao da 
gua se lhe ia tornando triste, e assim remava to ensimesmado que no soube de onde lhe veio subitamente um pavoroso sopro de tubaro nem porque a noite se tornou 
densa como se as estrelas tivessem morrido de repente, e era porque o transatlntico estava ali com todo o seu tamanho inconcebvel, me, mais grande que qualquer 
outra coisa grande no mundo e mais escuro que qualquer outra coisa escura da terra ou da gua, trezentas mil toneladas de cheiro de tubaro passando to perto do 
bote que ele podia ver as costuras do precipcio de ao, sem uma nica luz nas infinitas clarabias, sem um suspiro nas mquinas, sem uma alma, e levando consigo 
o seu prprio mbito de silncio, o seu prprio cu vazio, o seu prprio ar morto, o seu tempo parado, o seu mar errante, no qual flutuava um mundo inteiro de animais 
afogados, e de repente tudo aquilo desapareceu com o trago do farol, e por um instante voltou a ser o Caribe difano, a noite de Maro, o ar quotidiano dos pelicanos, 
de maneira que ele ficou s entre as bias, sem saber o que fazer, perguntando-se, assombrado, se de facto no estaria a sonhar acordado, no s agora, mas tambm 
das outras vezes, mas, mal acabara de se fazer esta pergunta, quando um sopro de mistrio foi apagando as bias, desde a primeira at  ltima, de modo que quando 
passou a claridade do farol o transatlntico voltou a aparecer e j tinha as bssolas extraviadas, talvez sem sequer saber em que lugar do mar ocenico se encontrava, 
buscando com tenteios o canal invisvel, mas na realidade derivando na direco dos escolhos, at que ele teve a revelao esmagadora de que aquele percalo das 
bias era a ltima chave do encantamento, e acendeu a lmpada do bote, uma minscula luzinha vermelha que no tinha nada para alarmar ningum nas almenaras da guarda 
fiscal, mas que deve ter sido para o piloto como um sol oriental, porque, graas a ela, o transatlntico corrigiu o seu horizonte e entrou pela porta grande do canal 
numa manobra de ressurreio feliz, e ento todas as suas luzes se acenderam ao mesmo tempo, as caldeiras voltaram a resfolegar, as estrelas prenderam-se ao seu 
cu e os cadveres dos animais foram para o fundo, e havia um estrpito de pratos e uma fragrncia de molho de loureiro nas cozinhas, e ouvia-se o bombardino da 
orquestra nas cobertas de lua e o tum-tum das artrias dos enamorados de mar alto na penumbra dos camarotes, mas ele levava ainda tanta raiva atrasada que no se 
deixou aturdir pela emoo nem amedrontar pelo prodgio, mas disse para si mesmo, com mais deciso do que nunca, que agora vo ver quem sou eu, catano, agora vo 
v-lo, e, em vez de pr-se para um lado, para que no o investisse aquela mquina colossal, comeou a remar em frente dela, porque agora, sim, vo saber quem sou 
eu, e continuou orientando o navio com a lmpada, at que esteve to certo da sua obedincia que o obrigou a mudar de novo o rumo dos molhes, tirou-o do canal invisvel 
e levou-o de cabresto, como se fosse um cordeiro de mar, em direco das luzes da povoao adormecida, um barco vivo e invulnervel aos feixes do farol que agora 
no invisibilizavam, mas que o tornavam de alumnio de quinze em quinze segundos, e alm comeavam a definir-se as cruzes da igreja, a misria das casas, a iluso, 
e, no obstante, o transatlntico ia atrs dele, seguindo-o com tudo o que levava dentro, o seu capito adormecido do lado do corao, os touros de lida na neve 
das suas despensas, o doente solitrio no seu hospital, a gua rf das suas cisternas, o piloto irremvel que deve ter confundido os farelhes com os molhes, porque 
naquele instante rebentou o bramido descomunal da sereia, uma vez, e ele ficou ensopado pelo aguaceiro de vapor que lhe caiu em cima, outra vez, e o bote alheio 
esteve quase a soobrar, e outra vez, mas j era demasiado tarde, porque a estavam os bzios da margem, as pedras da rua, as portas dos incrdulos, a povoao inteira 
iluminada pelas mesmas luzes do transatlntico apavorado, e ele mal teve tempo de afastar-se para deixar passar o cataclismo, gritando no meio da comoo, a o tm, 
cabres, um segundo antes que o tremendo casco de ao esquartejasse a terra e se ouvisse o estropcio ntido das noventa mil e quinhentas taas de champanhe que 
se partiram, uma atrs da outra, desde a proa  popa, e ento fez-se a luz, e j no foi mais a madrugada de Maro, mas sim o meio-dia de uma quarta-feira radiante, 
e ele pde permitir-se o gosto de ver os incrdulos contemplando com a boca aberta o transatlntico mais grande deste mundo e do outro encalhado em frente da igreja, 
mais branco que tudo, vinte vezes mais alto que a torre e cerca de noventa e sete vezes mais comprido que a povoao, com o nome gravado em letras de ferro, halalcsillag, 
e ainda jorrando pelos seus flancos as guas antigas e lnguidas dos mares da morte.
     

     
     
     Blacamn, o bom vendedor de milagres
      
     Logo no primeiro domingo em que o vi pareceu-me uma mula de mono-sbio, com os seus suspensrios de veludo pespontados com filamentos de ouro, as suas argolas 
com pedrarias de cores em todos os dedos e a sua trana de cascavis, empoleirado sobre uma mesa no porto de Santa Maria del Darin, entre os frascos de especficos 
e as ervas de consolao que ele mesmo preparava e vendia a altos brados, pelas povoaes do Caribe, com a diferena de que naquela altura no estava a vender nada 
quela porcaria de ndios, mas simplesmente pedindo que lhe levassem uma cobra verdadeira para demonstrar em carne prpria um contraveneno da sua inveno, o nico 
indelvel, senhoras e senhores, contra as picadas de serpentes, tarntulas e escolopendras, e toda a espcie de mamferos peonhentos. Algum que parecia muito impressionado 
pela sua determinao conseguiu, ningum soube onde, e levou-lhe dentro de um frasco uma mapan das piores, dessas que comeam por envenenar a respirao, e ele 
destapou-a com tantas ganas que todos acreditmos que a ia comer, mas, mal se sentiu livre, o animal saltou para fora do frasco e deu-lhe uma tesourada no pescoo 
que ali mesmo o deixou sem ar para a eloquncia, e apenas teve tempo de tomar o antdoto quando o dispensrio de pacotilha se despenhou sobre a multido e ele ficou 
a rebolar-se no cho com o enorme corpo desordenado, como se no tivesse nada por dentro, mas sem parar de rir com todos os seus dentes de ouro. De tal maneira seria 
o estrpito que um couraado do Norte que estava no molhe desde havia cerca de vinte anos em visita de boa vontade se ps de quarentena, para que no lhe subisse 
a bordo o veneno da cobra, e as pessoas que estavam santificando o Domingo de Ramos saram da missa com as suas palmas benditas, pois ningum queria perder o espectculo 
do empeonhado, que j comeava a inchar com o ar da morte e estava duas vezes mais gordo do que tinha sido, deitando espuma de fel pela boca e resfolegando pelos 
poros, mas, no obstante, rindo-se com tanta vida que os cascavis lhe cascavelhavam por todo o corpo. A inchao rebentou-lhe com os cordes das polainas e as costuras 
da roupa, os dedos amorcelaram-se-lhe pela presso das argolas, ps-se da cor do veado em salmoura e saram-lhe pelo nus umas ventosidades pstumas, de maneira 
que todos aqueles que tinham visto um picado por cobra sabiam que estava a apodrecer antes de morrer e que iria ficar to esmigalhado que teriam de recolh-lo com 
uma p para deit-lo dentro de um saco, mas tambm pensavam que at no seu estado de serradura ia continuar a rir-se. Aquilo era to incrvel que os fuzileiros da 
marinha se encarrapitaram nas pontes do navio para tirar-lhe retratos a cor com aparelhos de longa distncia, mas as mulheres que tinham sado da missa estragaram-lhes 
as intenes, pois taparam o moribundo com uma manta e colocaram-lhe por cima as palmas benditas, umas porque no lhes agradava que a armada profanasse o corpo com 
mquinas de adventistas, outras porque lhes fazia medo continuar a ver aquele fantico que era capaz de morrer a morrer de rir e outras para ver se por acaso com 
isso conseguiam que, pelo menos, a alma se lhe desenvenenasse.
     Toda a gente o dava como morto, quando afastou os ramos com uma braada, ainda meio atarantado e todo enfraquecido pelo mau bocado, mas endireitou a mesa sem 
a ajuda de ningum, tornou a subir para ela como um caranguejo e ps-se outra vez a gritar que aquele contraveneno era simplesmente a mo de Deus num frasquinho, 
como todos tnhamos visto com os nossos prprios olhos, apesar de s custar dois cuartillos, (Quarta parte de um real. (N. da T.) porque ele no o tinha inventado 
para negcio, mas para o bem da humanidade, e quem  que pediu um, senhoras e senhores, no se me amontoem, por favor, que h que chegue para todos.
      de crer que se amontoaram, e que fizeram bem, porque no fim no houve para todos. At o almirante do couraado comprou um frasquinho, convencido por ele de 
que tambm era bom para os chumbos envenenados dos anarquistas, e os tripulantes no se conformaram com tirar-lhe em cima da mesa os retratos em cor que no puderam 
tirar-lhe morto, mas fizeram-no assinar autgrafos at que as cibras lhe torceram o brao. Era quase noite e s tnhamos ficado no porto os mais perplexos, quando 
ele procurou com o olhar algum que tivesse cara de bobo para que o ajudasse a guardar os frascos, e, evidentemente, reparou em mim. Aquele foi como que o olhar do 
destino, no s do meu, como tambm do seu, pois isso aconteceu h j mais de um sculo e ambos nos recordamos ainda como se tivesse sido no domingo passado. O caso 
 que estvamos a meter a sua botica de circo naquele ba forrado de prpura, que mais parecia o sepulcro de um erudito, quando ele me deve ter visto por dentro 
alguma luz que no me tinha visto antes, porque me perguntou, de mau humor, quem s tu, e eu respondi-lhe que era o nico rfo de pai e me a quem ainda no tinha 
morrido o pap, e ele soltou umas gargalhadas mais estrepitosas que as do veneno e perguntou-me, depois, o que fazes na vida, e eu respondi-lhe que no fazia nada 
mais que estar vivo, porque tudo o resto no valia a pena, e ainda chorando de riso perguntou-me qual a cincia que eu mais gostaria de conhecer no mundo, e essa 
foi a nica vez em que lhe respondi sem enganar a verdade, que queria ser adivinho, e ento no tornou a rir, mas disse-me, como se estivesse a pensar em voz alta, 
que para isso me faltava pouco, pois j tinha o mais fcil de aprender, que era a minha cara de bobo. Nessa mesma noite falou com o meu pai, e, por um real e dois 
cuartillos e um baralho de prognosticar adultrios, comprou-me para sempre.
     Assim era Blacamn, o mau, porque o bom sou eu. Era capaz de convencer um astrnomo de que o ms de Fevereiro no era mais do que um rebanho de elefantes invisveis, 
mas, quando a sorte se lhe virava, tornava-se duro de corao. Nos seus tempos de glria tinha sido embalsamador de vice-reis, e dizem que lhes compunha uma cara 
de tanta autoridade que durante muitos anos continuavam a governar melhor do que quando estavam vivos, e que ningum se atrevia a enterr-los enquanto ele no lhes 
tornasse a pr a catadura de mortos, mas o prestgio foi-lhe estragado pela inveno de um xadrez de nunca acabar que enlouqueceu um capelo e provocou dois suicdios 
ilustres, e assim foi decaindo de intrprete de sonhos em hipnotizador de aniversrios, de arrancador de molares por sugesto em curandeiro de feira, de maneira 
que na poca em que nos conhecemos j at os flibusteiros o olhavam de lado. Andvamos  deriva com a nossa barraca de tramias, e a vida era um eterno soobro, 
tentando vender os supositrios de evaso que tornavam transparentes os contrabandistas, as gotas furtivas que as esposas baptizadas deitavam na sopa para infundir 
o temor de Deus aos maridos holandeses, e tudo o que vocs queiram comprar de prpria vontade, senhoras e senhores, porque isto no  uma ordem, mas um conselho, 
e, ao fim e ao cabo, to-pouco a felicidade  uma obrigao. Contudo, por mais que nos morrssemos de rir das suas ideias, a verdade  que com grandes dificuldades 
nos chegavam para comer, e a sua ltima esperana fundava-se na minha vocao de adivinho. Fechava-me no ba sepulcral, disfarado de japons e amarrado com correntes 
de estibordo, para que tentasse adivinhar o que pudesse, enquanto ele desentranhava a gramtica procurando a melhor maneira de convencer o mundo da sua nova cincia, 
e aqui tm, senhoras e senhores, esta criatura atormentada pelos pirilampos de Ezequiel, e vocemec que ficou para a com essa cara de incrdulo, vamos a ver se 
se atreve a perguntar-lhe quando vai morrer, mas nunca consegui adivinhar nem a data em que estvamos, de maneira que ele desesperou de eu ser adivinho, porque o 
torpor da digesto transtorna-lhe a glndula dos pressgios, e, depois de me abater com uma trancada, para restaurar-se da boa sorte resolveu levar-me ao meu pai, 
para que lhe devolvesse o dinheiro. Contudo, nesses tempos deu-lhe para encontrar aplicaes prticas para a electricidade do sofrimento e ps-se a fabricar uma 
mquina de coser conectada com ventosas  parte do corpo em que se tivesse uma dor. Como eu passava a noite a queixar-me das sovas que ele me dava para conjurar 
a desgraa, teve de ficar comigo como provador do seu invento, e assim se foi atrasando o regresso e se lhe foi compondo o humor, at que a mquina funcionou to 
bem que, no s cosia melhor que uma novia, mas ainda bordava pssaros e flores, segundo a posio e a intensidade da dor. Estvamos nisso, convencidos da nossa 
vitria sobre a m sorte, quando nos chegou a notcia de que o comandante do couraado tinha querido repetir em Filadlfia a experincia do contraveneno e converteu-se 
em marmelada de almirante em presena do seu estado-maior.
     No voltou a rir-se durante muito tempo. Fugimos por desfiladeiros de ndios e,  medida que mais perdidos nos encontrvamos, mais claras nos chegavam as vozes 
de que os fuzileiros navais tinham invadido a nao, com o pretexto de exterminar a febre amarela, e andavam a degolar todos os vendedores ambulantes inveterados 
ou fortuitos que encontravam pelo caminho, e no s os nativos por precauo, como tambm os chineses por distraco, os negros por costume e os hindus por serem 
encantadores de serpentes, e depois arrasaram com a fauna e a flora e com o que puderam do reino mineral, porque os seus especialistas dos nossos assuntos tinham-lhes 
ensinado que a gente do Caribe tinha a virtude de mudar de natureza para enrolar os gringos. Eu no percebia de onde lhes tinha sado aquela raiva nem por que razo 
ns tnhamos tanto medo, at que nos encontrmos a salvo nos ventos eternos da Guajira, e s ali teve a coragem para confessar-me que o seu contraveneno no era 
mais do que ruibarbo com terebintina, mas que tinha pago dois cuartillos a um calanchn para que lhe levasse aquela mapan sem peonha. Ficmos nas runas de uma 
misso colonial, enganados com a esperana de que passassem os contrabandistas, que eram homens de fiar e os nicos capazes de aventurar-se sob o sol mercurial daqueles 
ermos de salitre. Ao princpio comamos salamandras defumadas com flores de escombros, e ainda nos ficava nimo para rirmos quando tentmos comer as suas polainas 
fervidas, mas finalmente comemos at as teias de aranha da gua dos poos, e s ento nos demos conta da falta que nos fazia o mundo. Como eu no conhecia naquele 
tempo nenhum recurso contra a morte, deitei-me simplesmente a esper-la onde me doesse menos, enquanto ele delirava com a recordao de uma mulher to terna que 
podia passar suspirando atravs das paredes, mas tambm aquela recordao inventada era um artifcio da sua arte para enganar a morte com desgostos de amor. Contudo, 
na hora em que devamos ter morrido, aproximou-se de mim mais vivo do que nunca e esteve a noite inteira a vigiar-me a agonia, pensando com tanta fora que ainda 
no consegui saber se o que assobiava entre os escombros era o vento ou o seu pensamento, e antes de amanhecer disse-me com a mesma voz e a mesma determinao de 
outra poca que agora conhecia a verdade, e era que eu lhe tinha tornado a virar a sorte, de maneira que amarra-te bem as calas porque assim como ma torceste vais-ma 
endireitar.
     Foi nessa altura que comeou a desaparecer a pouca afeio que eu lhe tinha. Tirou-me os ltimos trapos de cima, enrolou-me em arame farpado, esfregou-me pedras 
de salitre nas chagas, ps-me salmoura nas minhas prprias guas e pendurou-me pelos tornozelos para me macerar ao sol, e ainda gritava que aquela mortificao no 
era suficiente para apaziguar os seus perseguidores. Por fim atirou-me a apodrecer nas minhas prprias misrias para dentro do calabouo de penitncia onde os missionrios 
coloniais regeneravam os hereges, e com a perfdia de ventrloquo que ainda lhe sobrava ps-se a imitar as vozes dos animais de comer, o rumor das beterrabas maduras 
e o rudo dos mananciais para torturar-me com a iluso de que estava a morrer de indigncia no Paraso. Quando, por fim, o abasteceram os contrabandistas, descia 
ao calabouo para dar-me a comer alguma coisa que no me deixasse morrer, mas a seguir fazia-me pagar a caridade arrancando-me as unhas com tenazes e rebaixando-me 
os dentes com pedras de moer, e o meu nico consolo era o desejo de que a vida me desse tempo e sorte para desforrar-me de tanta infmia com outros martrios piores. 
Eu prprio me assombrava de poder resistir  pestilncia da minha prpria putrefaco, e ainda me atirava para cima com as sobras dos seus almoos e deitava pelos 
cantos pedaos de lagartos e gavies podres, para que o ar do calabouo se acabasse de envenenar. No sei quanto tempo tinha passado quando me levou o cadver de 
um coelho para mostrar-me que preferia deit-lo a apodrecer do que dar-mo de comer, e at ali me chegou a pacincia e unicamente me ficou o rancor, de maneira que 
agarrei o corpo do coelho pelas orelhas e atirei-o contra a parede, com a iluso de que era ele, e no o animal, que ia rebentar, e ento foi quando sucedeu como 
num sonho, que o coelho no s ressuscitou com um guincho de espanto, como tambm regressou s minhas mos caminhando pelo ar.
     Foi assim que comeou a minha vida grande. Desde a ando pelo mundo tirando a febre aos paldicos por dois pesos, dando vista aos cegos por quatro e cinquenta, 
desaguando os hidrpicos por dezoito, completando os mutilados por vinte pesos se o so de nascena, por vinte e dois se o so por acidentes ou bulhas, por vinte 
e cinco se o so por causa de guerras, terramotos, desembarques de fuzileiros ou qualquer outro gnero de calamidades pblicas, atendendo os doentes vulgares em 
grosso mediante combinao especial, os loucos conforme o gnero, s crianas por metade do preo e aos bobos por gratido, e a ver quem se atreve a dizer que no 
sou um filantropo, damas e cavalheiros, e agora, sim, senhor comandante da vigsima esquadra, ordene aos seus rapazes que tirem as barricadas para que passe a humanidade 
dorida, os lazarentos  esquerda, os epilpticos  direita, os tolhidos onde no estorvem e l para trs os menos urgentes, mas, por favor, no se me amontoem, que 
depois no me responsabilizo se se lhes baralham as doenas e ficam curados do que no , e que continue a msica at que ferva o cobre, e os foguetes at que se 
queimem os anjos e a aguardente at matar a ideia, e venham as matronas e os acrobatas, os magarefes e os fotgrafos, e tudo isso por minha conta, damas e cavalheiros, 
que aqui se acabou a m fama dos Blacamanes e se promoveu o avigoramento universal. Assim os vou adormecendo com tcnicas de deputado, para o caso de me falhar o 
critrio e alguns me ficarem piores do que estavam. A nica coisa que no fao  ressuscitar os mortos, porque mal abrem os olhos contramatam de raiva o perturbador 
do seu estado, e, no fim de contas, os que no se suicidam voltam a morrer de desiluso. Ao princpio, perseguia-me um squito de sbios, para investigar a legalidade 
da minha indstria, e quando ficaram convencidos ameaaram-me com o inferno de Simo, o Mago, e recomendaram-me uma vida de penitncia para que viesse a ser santo, 
mas eu respondi-lhes, sem menosprezo pela sua autoridade, que era precisamente por a por onde tinha comeado. A verdade  que eu no ganho nada com ser santo depois 
de morto, eu o que sou  um artista, e a nica coisa que quero  estar vivo para continuar uma vida sem peias com este calhambeque descapotvel de seis cilindros 
que comprei ao cnsul dos fuzileiros, com este motorista trinitrio que era bartono da pera dos piratas de Nova Orlees, com as minhas camisas de seda pura, as 
minhas loes de oriente, os meus dentes de topzio, o meu chapu de palhinha e os meus botins de duas cores, dormindo sem despertador, bailando com as rainhas da 
beleza e deixando-as como que alucinadas com a minha retrica de dicionrio, e sem que me trema a voz se numa Quarta-Feira de Cinzas se me murcham as faculdades, 
pois, para continuar com esta vida de ministro, basta-me a minha cara de bobo e chega-me o tropel de barracas que tenho daqui at mais alm do crepsculo, onde os 
mesmos turistas que nos andavam a fazer figura de almirante esbarram agora nos retratos com a minha rubrica, nos almanaques com os meus versos de amor, nas minhas 
medalhas de perfil, nos meus bocadinhos de roupa, e tudo isso sem a gloriosa madorna de estar todo o dia e toda a noite esculpido em mrmore equestre e cagado pelas 
andorinhas como os pais da ptria.
      pena que Blacamn, o Mau, no possa repetir esta histria, para que vejam que no tem nada de inveno. A ltima vez que algum o viu neste mundo tinha perdido 
at as grandes tachas douradas do seu antigo esplendor, e tinha a alma desmantelada e os ossos em desordem pelo rigor do deserto, mas ainda lhe sobrou um bom par 
de cascavis para reaparecer naquele domingo no porto de Santa Maria del Darin com o eterno ba sepulcral, com a diferena de que nessa altura no estava a vender 
nenhum contraveneno, mas pedindo, com a voz fendida pela emoo, que os fuzileiros navais o fuzilassem em espectculo pblico, para demonstrar em carne prpria as 
faculdades ressuscitadoras desta criatura sobrenatural, senhoras e senhores, e ainda que a vocs lhes sobre o direito de no me acreditar depois de ter padecido 
durante tanto tempo as minhas ms astcias de embusteiro e falsificador, juro-lhes pelos ossos de minha me que esta experincia de hoje no  nada do outro mundo, 
mas a humilde verdade, e no caso de lhes restar alguma dvida reparem bem que agora no estou a rir como antes, mas aguentando as ganas de chorar. Estava de tal 
maneira convincente que desabotoou a camisa com os olhos afogados de lgrimas, e dava-se palmadas de mulo no corao, para indicar o melhor stio da morte, e, no 
obstante, os fuzileiros navais no se atreveram a disparar com o temor de que as multides dominicais lhes reconhecessem o desprestgio. Algum que possivelmente 
no esquecia as blacamanices de outra poca conseguiu, ningum soube onde, e levou-lhe, dentro de uma lata, umas razes de verbasco que teriam chegado para pr a 
flutuar as corvinas do Caribe, e ele destapou-as com tantas ganas como se, de facto, as fosse comer, e com efeito comeu-as, senhoras e senhores, mas, por favor, 
no se me comovam nem vo rezar pelo meu descanso, que esta morte no  mais do que uma visita. Daquela vez foi to honrado que no se comprometeu com estertores 
de pera, mas desceu da mesa como um caranguejo, procurou no cho atravs das primeiras dvidas o lugar mais digno para se deitar, e dali olhou para mim como para 
uma me e exalou o seu ltimo suspiro entre os seus prprios braos, contudo contendo as suas lgrimas de homem e torcido do direito e do avesso pelo ttano da eternidade. 
Foi essa a nica vez, certamente, em que me falhou a cincia. Meti-o naquele ba de tamanho premonitrio onde coube de corpo inteiro, mandei-lhe cantar uma missa 
de trevas que me custou cinquenta dobres de quatro, porque o oficiante estava vestido de ouro e, alm disso, havia trs bispos sentados, mandei-lhe edificar um 
mausolu de imperador sobre uma colina exposta aos melhores tempos do mar, com uma capela s para ele, e uma lpida de ferro onde ficou escrito com maisculas gticas 
que aqui jaz Blacamn, o Morto, mal chamado o Mau, mistificador de fuzileiros e vtima da cincia, e, quando estas honras me bastaram, para lhe fazer justia pelas 
suas virtudes, comecei a desforrar-me das suas infmias, e ento ressuscitei-o dentro do sepulcro blindado e ali o deixei a rebolar-se no horror. Isto aconteceu 
muito antes de que Santa Maria del Darin tivesse sido tragada pela marabunta, mas o mausolu continua intacto na colina,  sombra dos drages que sobem para dormir 
nos ventos atlnticos, e cada vez que passo por esses rumos levo-lhe um camio carregado de rosas e di-me o corao com pena pelas suas virtudes, mas depois ponho 
o ouvido na lpida para ouvi-lo chorar entre os escombros do ba desfeito e se, por acaso, voltou a morrer volto a ressuscit-lo, pois a graa do castigo  que continue 
a viver na sepultura enquanto eu esteja vivo, isto , para sempre.
     

     
     
     A incrvel e triste histria da cndida Erndira
     e da sua av desalmada
     
     Erndira estava a dar banho  sua av quando comeou o vento da sua desgraa. A enorme manso de argamassa lunar, perdida na solido do deserto, estremeceu 
at s fundaes com a primeira investida. Mas Erndira e a av estavam afeitas aos perigos daquela natureza desatinada e mal notaram o calibre do vento no quarto 
de banho ornamentado com paves repetidos e mosaicos pueris de termas romanas.
     A av, nua e grande, parecia uma formosa baleia branca na alverca de mrmore. A neta mal tinha completado os catorze anos, e era lnguida e de ossos tenros, 
e demasiado mansa para a sua idade. Com uma parcimnia que tinha alguma coisa de rigor sagrado, fazia ablues  av com uma gua em que tinha fervido plantas depurativas 
e folhas de bom cheiro, e estas ficavam pegadas s espduas suculentas, nos cabelos metlicos e soltos, no ombro potente tatuado sem piedade com um escrnio de marinheiros.
     - Esta noite sonhei que estava  espera de uma carta - disse a av.
     Erndira, que nunca falava, a no ser por motivos iniludveis, perguntou:
     - Que dia era no sonho?
     - Quinta-feira.
     - Ento era uma carta com ms notcias - disse Erndira -, mas no chegar nunca.
     Quando a acabou de lavar, levou a av para o seu quarto. Era to gorda que s podia andar apoiada no ombro da neta, ou com um bculo que parecia de bispo, mas 
mesmo nas suas diligncias mais difceis notava-se o domnio de uma grandeza antiquada. Na alcova composta com um critrio excessivo e um pouco demente, como toda 
a casa, Erndira precisou de mais de duas horas para arranjar a av. Desenredou-lhe o cabelo fio por fio, perfumou-lho e penteou-lho, ps-lhe um vestido de flores 
equatoriais, polvilhou-lhe a cara com p de talco, pintou-lhe os lbios com carmim, as plpebras com almscar e as unhas com esmalte de ncar, e quando a teve enfeitada 
como uma boneca mais grande que o tamanho humano levou-a para um jardim artificial de flores sufocantes como as do vestido, sentou-a numa poltrona que tinha a base 
e a estirpe de um trono e deixou-a a ouvir os discos fugazes do gramofone com altifalante.
     Enquanto a av navegava pelos lamaais do passado, Erndira ocupou-se a varrer a casa, que era escura e pintada de vrias cores, com mveis frenticos e esttuas 
de csares inventados, e aranhas de lgrimas e anjos de alabastro, e um piano com verniz de ouro, e numerosos relgios de formas e medidas imprevisveis. Tinha no 
ptio uma cisterna para armazenar durante muitos anos a gua transportada a dorso de ndio desde mananciais remotos, e numa argola da cisterna estava uma avestruz 
raqutica, o nico animal de penas que pde sobreviver ao tormento daquele clima malvado. Estava longe de tudo, na alma do deserto, junto a uma espcie de povoado 
com ruas miserveis e ardentes, onde os cabritos se suicidavam de desolao quando soprava o vento da desgraa.
     Aquele refgio incompreensvel tinha sido construdo pelo marido da av, um contrabandista legendrio que se chamava Amads, de quem ela teve um filho que tambm 
se chamava Amads e que foi o pai de Erndira. Ningum conheceu as origens nem os motivos dessa famlia. A verso mais conhecida em lngua de ndios era que Amads, 
o pai, tinha resgatado a sua formosa mulher dum prostbulo das Antilhas, onde matou um homem  facada, e transportou-a para sempre para a impunidade do deserto. 
Quando os Amadises morreram, um de febres melanclicas e outro crivado de golpes num pleito de rivais, a mulher enterrou os cadveres no ptio, despediu as catorze 
criadas descalas e continuou apascentando os seus sonhos de grandeza na penumbra da casa furtiva, graas ao sacrifcio da neta bastarda, que tinha criado desde 
a nascena.
     S para dar corda e acertar os relgios, Erndira necessitava de seis horas. No dia em que comeou a sua desgraa no teve de o fazer, pois os relgios tinham 
corda at  manh seguinte, mas, em troca, teve de dar banho e tornar a vestir a av, esfregar os andares, fazer o almoo e polir a cristalaria. Cerca das onze, 
quando mudou a gua do balde da avestruz e regou as ervas daninhas das tumbas contguas dos Amadises, teve de contrariar a coragem do vento, que se tinha tornado 
insuportvel, mas no sentiu o mau pressgio de que aquele fosse o vento da sua desgraa. s doze estava a polir as ltimas taas de champanhe, quando percebeu um 
cheiro de caldo delicado, e teve de fazer um milagre para conseguir correr at  cozinha sem deixar no seu caminho um desastre de vidros de Veneza.
     Quase no conseguiu tirar a panela, que comeava a entornar-se na fornalha. A seguir ps ao lume um guisado que j tinha preparado e aproveitou a ocasio para 
sentar-se a descansar num banco de cozinha. Fechou os olhos, abriu-os depois com uma expresso sem cansao, e comeou a deitar a sopa na sopeira. Trabalhava adormecida.
     A av tinha-se sentado s na cabeceira de uma mesa de banquete, com candelabros de prata e servios para doze pessoas, tocou a campainha, e quase no mesmo instante 
acudiu Erndira com a sopeira fumegante. No momento em que lhe servia a sopa, a av reparou nos seus modos de sonmbula e passou-lhe a mo em frente dos olhos, como 
se estivesse a limpar um espelho invisvel. A menina no viu a mo. A av seguiu-a com o olhar, e quando Erndira lhe virou as costas para voltar  cozinha, gritou-lhe:
     - Erndira.
     Despertada de chofre, a menina deixou cair a sopeira no tapete.
     - No  nada, filha - disse-lhe a av, com uma ternura verdadeira. - Voltaste a dormir a andar.
     -  o costume do corpo - desculpou-se Erndira. Apanhou a sopeira, ainda aturdida pelo sono, e tentou limpar a mancha do tapete.
     - Deixa-o assim - dissuadiu-a a av -, lava-la esta tarde. De maneira que, alm dos trabalhos naturais da tarde,
     Erndira teve de lavar o tapete da sala de jantar, e aproveitou o estar no tanque para lavar tambm a roupa de segunda-feira, enquanto o vento dava voltas em 
torno da casa, procurando um intervalo por onde meter-se. Teve tanto que fazer que a noite lhe caiu em cima sem que se desse conta, e quando tornou a colocar o tapete 
da sala de jantar era a hora de deitar-se.
     A av tinha dedilhado no piano toda a tarde, cantando, com voz de falsete, para si mesma as canes da sua poca, e ainda lhe ficavam nas plpebras as ndoas 
de leo de almscar com lgrimas. Mas, quando se estendeu na cama com o camiso de musselina, tinha-se restabelecido da amargura das boas recordaes.
     - Aproveita amanh para lavar tambm o tapete da sala - disse a Erndira -, que no viu o Sol desde os tempos do rudo.
     - Sim, av - respondeu a menina.
     Pegou num leque de penas e comeou a abanar a matrona implacvel, que lhe recitava o cdigo de ordem nocturno enquanto se afundava no sono.
     - Engoma toda a roupa antes de deitar-te, para que durmas com a conscincia tranquila.
     - Sim, av.
     - Revista bem os roupeiros, que nas noites de vento as traas tm mais fome.
     - Sim, av.
     - Com o tempo que te sobre, pe as flores no ptio para que respirem.
     - Sim, av.
     - E pes a comida  avestruz.
     Tinha adormecido, mas continuou a dar ordens, pois dela tinha herdado a neta a virtude de continuar a viver no sono. Erndira saiu do quarto sem fazer barulho 
e fez os ltimos trabalhos da noite, respondendo sempre aos mandatos da av adormecida.
     - D de beber s tumbas.
     - Sim, av.
     - Antes de deitar-te, repara em que tudo fique em perfeita ordem, pois as coisas sofrem muito quando no so postas a dormir nos seus lugares.
     - Sim, av.
     - E se vierem os Amadises diz-lhes que no entrem - disse a av -, que as quadrilhas de Porfirio Galn esto  espera deles para os matar.
     Erndira no respondeu mais, porque sabia que comeava a extraviar-se no delrio, mas no se esqueceu de uma ordem.
     Quando acabou de revistar as tranquetas das janelas e apagou as ltimas luzes, pegou num candelabro da sala de jantar e foi alumiando o caminho at ao seu quarto 
de dormir, enquanto as pausas do vento se enchiam com a respirao aprazvel e enorme da av adormecida.
     O seu quarto de dormir tambm era luxuoso, embora no tanto como o da av, e estava atulhado com as bonecas de trapo e os animais de corda da sua infncia recente. 
Vencida pelas ocupaes brbaras da jornada, Erndira no teve coragem para despir-se, s ps o candelabro na mesa-de-cabeceira e caiu na cama. Pouco depois, o vento 
da sua desgraa meteu-se no quarto como uma manada de ces e tombou o candelabro contra as cortinas.
     Ao amanhecer, quando por fim se acabou o vento, comearam a cair umas gotas de chuva grossas e separadas que apagaram as ltimas brasas e endureceram as cinzas 
fumegantes da manso. A gente da povoao, ndios na sua maioria, tentava recuperar os restos do desastre: o cadver carbonizado da avestruz, a armao do piano 
dourado, o torso de uma esttua. A av contemplava com um abatimento impenetrvel os resduos da sua fortuna. Erndira, sentada entre as duas tumbas dos Amadises, 
tinha parado de chorar. Quando a av se convenceu de que ficavam muito poucas coisas intactas entre os escombros, olhou para a neta com uma compaixo sincera.
     - Minha pobre menina - suspirou. - No te chegar a vida para pagar-me este percalo.
     Comeou a pagar-se nesse mesmo dia, sob o estrondo da chuva, quando a levou ao lojista da povoao, um vivo esqulido e prematuro que era muito conhecido no 
deserto porque pagava um bom preo pela virgindade. Ante a expectativa impvida da av, o vivo examinou Erndira com uma austeridade cientfica: considerou a fora 
dos seus msculos, o tamanho dos seus seios, o dimetro das suas ancas. No disse uma palavra enquanto no fez um clculo do seu valor.
     - Ainda est muito verde - disse ento -, tem tetazinhas de cadela.
     Depois f-la subir para uma balana para provar com nmeros o seu ditame. Erndira pesava 42 quilos.
     - No vale mais de cem pesos - disse o vivo. A av escandalizou-se.
     - Cem pesos por uma criatura completamente nova! - quase gritou. - No, homem, isso  faltar muito ao respeito  virtude.
     - At cento e cinquenta - disse o vivo.
     - A menina fez-me um prejuzo de mais de um milho de pesos - disse a av. - Por este andar far-lhe-iam falta cerca de duzentos anos para me pagar.
     - Por sorte - disse o vivo -, a nica coisa boa que tem  a idade.
     O temporal ameaava desengonar a casa, e havia tantas goteiras no tecto que quase chovia no interior como no exterior. A av sentiu-se s num mundo de desastre.
     - Suba, pelo menos, at trezentos - disse.
     - Duzentos e cinquenta.
     Por fim puseram-se de acordo por duzentos e vinte pesos em dinheiro efectivo e algumas coisas para comer. A av ento fez sinal a Erndira para que fosse com 
o vivo, e este levou-a pela mo at ao quarto por detrs da loja, como se a levasse para a escola.
     - Espero-te aqui - disse a av.
     - Sim, av - disse Erndira.
     O quarto atrs da loja era uma espcie de alpendre com quatro pilares de ladrilhos, um tecto de palmas podres e uma barda de tijolo de um metro de altura, por 
onde se metiam na casa os distrbios da intemprie.
     Postos na beira dos tijolos estavam vasos de cactos e outras plantas de aridez. Pendurada entre dois pilares, agitando-se como a vela solta de uma balandra 
garrada, estava uma rede sem cor. Por cima do assobio da tormenta e as cordoadas da gua ouviam-se gritos distantes, uivos de animais remotos, vozes de naufrgio.
     Quando Erndira e o vivo entraram no alpendre tiveram de segurar-se, para no carem com um golpe de chuva que os deixou ensopados. As suas vozes no se ouviam 
e os seus movimentos tinham-se tornado diversos, pelo fragor da borrasca.  primeira tentativa do vivo, Erndira gritou algo inaudvel e tentou escapar. O vivo 
respondeu-lhe sem voz, torceu-lhe o brao pelo punho e arrastou-a at  rede. Ela resistiu-lhe com um arranho na cara e voltou a gritar em silncio e ele respondeu-lhe 
com uma bofetada solene que a levantou do cho e a fez flutuar um instante no ar com o comprido cabelo de medusa ondulando no vcuo, abraou-a pela cintura antes 
que voltasse a pisar o cho, derrubou-a dentro da rede com um golpe brutal e imobilizou-a com os joelhos. Erndira sucumbiu ento ao terror, perdeu os sentidos e 
ficou como que fascinada com as franjas de lua de um peixe que passava a navegar pelo ar da tormenta, enquanto o vivo a despia, rasgando-lhe a roupa com unhadas 
espaadas, como a arrancar erva, desfazendo-a em longas tiras de cor que ondulavam como serpentinas e se iam com o vento.
     Quando no houve na povoao nenhum homem que pudesse pagar alguma coisa pelo amor de Erndira, a av levou-a num camio de carga para os rumos do contrabando. 
Fizeram a viagem na plataforma aberta, entre sacos de arroz e latas de manteiga e os restos do incndio: a cabeceira da cama vice-real, um anjo de guerra, o trono 
chamuscado e outros trastes inteis. Num ba com duas cruzes pintadas  broxa levaram os ossos dos Amadises.
     A av protegia-se do sol eterno com um guarda-chuva descosido e respirava mal pela tortura do suor e do p, mas mesmo naquele estado de infortnio conservava 
o domnio da sua dignidade. Atrs da pilha de latas e sacos de arroz, Erndira pagou a viagem e o transporte dos mveis, fazendo amor a vinte pesos com o carregador 
do camio. Ao princpio, o seu sistema de defesa foi o mesmo com que se tinha oposto  agresso do vivo. Mas o mtodo do carregador foi diferente, lento e sbio, 
e acabou por amans-la com a ternura. De maneira que quando chegaram  primeira povoao, ao cabo de uma jornada mortal, Erndira e o carregador descansavam do bom 
amor por detrs do parapeito da carga. O condutor do camio gritou  av:
     - De aqui para diante j tudo  mundo.
     A av observou com incredulidade as ruas miserveis e solitrias de uma povoao um pouco maior, mas to triste como a que tinham abandonado.
     - No se d por isso - disse.
     -  territrio de misses - disse o condutor.
     - A mim no me interessa a caridade, mas o contrabando - disse a av.
     Suspensa do dilogo por detrs da carga, Erndira esburacava com o dedo um saco de arroz. Subitamente encontrou uma linha, puxou por ela e tirou um grande colar 
de prolas legtimas. Contemplou-o, assustada, segurando-o entre os dedos como uma cobra morta, enquanto o condutor replicava  av:
     - No sonhe acordada, senhora. Os contrabandistas no existem.
     - Ai, no - disse a av -, diga-me isso a mim.
     - Procure-os e ver - troou o condutor, bem disposto.
     - Toda a gente fala deles, mas ningum os v.
     O carregador deu-se conta de que Erndira tinha tirado o colar, apressou-se a tirar-lho e meteu-o outra vez no saco de arroz. A av, que se tinha decidido a 
ficar, apesar da pobreza da povoao, chamou ento a neta, para que a ajudasse a descer do camio. Erndira despediu-se do carregador com um beijo apressado, mas 
espontneo e sincero.
     A av esperou, sentada no trono, no meio da rua, at que acabaram de descer a carga. A ltima coisa foi o ba com os restos dos Amadises.
     - Isto pesa como um morto - troou o condutor.
     - So dois - disse a av. - Por isso, trate-os com o devido respeito.
     - Aposto que so esttuas de marfim - troou o condutor.
     Ps o ba com os ossos, de qualquer maneira, entre os mveis chamuscados e estendeu a mo aberta diante da av.
     - Cinquenta pesos - disse. A av apontou o carregador.
     - J o seu escravo recebeu adiantado.
     O condutor olhou, surpreendido, para o ajudante e este fez-lhe sinal afirmativo. Voltou  cabina do camio, onde viajava uma mulher enlutada com um beb de 
colo, que chorava de calor. O carregador, muito seguro de si, disse ento  av:
     - Erndira parte comigo, se a senhora no manda outra coisa.  com boas intenes.
     A menina interveio, assustada.
     - Eu no disse nada!
     - Digo-o eu, que fui quem teve a ideia - disse o carregador.
     A av examinou-o de corpo inteiro, sem o diminuir, mas tentando calcular o verdadeiro tamanho dos seus tomates.
     - Por mim no h inconveniente - disse-lhe -, se me pagas o que perdi pelo seu descuido.
     So oitocentos e setenta e dois mil e trezentos e quinze pesos, menos quatrocentos e vinte que j me pagou, ou seja, oitocentos e setenta e um mil oitocentos 
e noventa e cinco. O camio arrancou.
     - Creia-me que lhe daria esse monto de dinheiro se o tivesse - disse o carregador com seriedade. - A menina vale-os.
      av caiu-lhe bem a deciso do rapaz.
     - Pois volta quando o tiveres, filho - replicou-lhe num tom simptico -, mas agora parte, que, se voltamos a fazer as contas, ainda me ests a dever dez pesos.
     O carregador saltou para a plataforma do camio, que se afastava. Da disse adeus a Erndira com a mo, mas ela estava ainda to assustada que no lhe retribuiu.
     No mesmo terreno baldio onde as deixou o camio, Erndira e a av improvisaram uma barraca para viver, com folhas de zinco e restos de tapetes asiticos. Puseram 
duas esteiras no solo e dormiram to bem como na manso, at que o sol abriu buracos no tecto e lhes abrasou a cara.
     Ao contrrio de sempre, foi a av quem nessa manh se ocupou de arranjar Erndira. Pintou-lhe a cara com um estilo de beleza sepulcral que tinha estado na moda 
durante a sua juventude e arrematou-a com umas pestanas postias e um lao de organdi que parecia uma borboleta na cabea.
     - Achas-te horrorosa - admitiu -, mas assim  melhor: os homens so muito duros em assuntos de mulheres.
     Ambas reconheceram, muito antes de v-las, os passos de duas mulas na secura do deserto. A uma ordem da av, Erndira deitou-se na esteira, como o teria feito 
uma aprendiza de teatro no momento em que ia abrir-se o pano de boca. Apoiada no bordo episcopal, a av abandonou a barraca e sentou-se no trono  espera da passagem 
das mulas.
     Aproximava-se o homem do correio.
     No tinha mais de vinte anos, embora estivesse envelhecido pelo ofcio, e trazia um fato de caqui, polainas, capacete de cortia, e uma pistola de militar no 
cinturo de cartucheiras. Montava uma boa mula e levava outra de cabresto, menos robusta, sobre a qual se amontoavam os sacos de lona do correio.
     Ao passar em frente da av, saudou-a com a mo e continuou o caminho. Mas ela fez um sinal para que deitasse um olhar no interior da barraca. O homem deteve-se, 
e viu Erndira deitada na esteira com os seus adornos pstumos e um vestido de sanefas cor de amora.
     - Agrada-te? - perguntou a av.
     O homem do correio no tinha compreendido at esse momento o que lhe estavam a propor.
     - Em jejum no est mal - riu levemente.
     - Cinquenta pesos - disse a av.
     - Ena! Deve t-la de ouro! - disse ele. - Isso  o que me custa a comida de um ms.
     - No sejas agarrado - disse a av. - O correio areo tem melhor ordenado que um cura.
     - Eu sou o correio nacional - disse o homem. - O correio areo  esse que anda numa camioneta.
     - De qualquer maneira, o amor  to importante como a comida - disse a av.
     - Mas no alimenta.
     A av compreendeu que a um homem que vivia das esperanas alheias lhe sobejava demasiado tempo para regatear.
     - Quanto tens? - perguntou-lhe.
     O correio desmontou, tirou do bolso umas notas amarrotadas e mostrou-as  av. Ela apanhou-as todas juntas, com uma mo de ave de rapina, como se fossem um 
novelo.
     - Fao-te um abatimento - disse -, mas com uma condio: fazes propaganda por toda a parte.
     - At ao outro lado do mundo - disse o homem do correio. -  para isso que sirvo.
     Erndira, que no tinha podido pestanejar, tirou ento as pestanas postias e chegou-se para um lado da esteira para deixar espao ao noivo casual. Mal ele 
entrou na barraca, a av fechou a entrada com um puxo enrgico na cortina de correr.
     Foi um tratado eficaz. Atrados pelas vozes do correio, vieram homens de muito longe, para conhecer a novidade de Erndira. Atrs dos homens vieram mesas de 
jogos de azar e barracas de comida e atrs de todos veio um fotgrafo em bicicleta, que instalou em frente do acampamento um aparelho de cavalete, com manga de luto 
e uma tela de fundo com um lago de cisnes invlidos.
     A av, abanando-se no trono, parecia alheia  sua prpria feira. A nica coisa que lhe interessava era a ordem na fila dos clientes que esperavam turno e a 
exactido do dinheiro que pagavam adiantadamente para entrar na tenda de Erndira. Ao princpio tinha sido to severa que at chegou a repelir um bom cliente porque 
lhe faltavam cinco pesos. Mas, com o decorrer dos meses, foi assimilando as lies da realidade e acabou por admitir que completassem o pagamento com medalhas de 
santos, relquias de famlia, anis matrimoniais e tudo quanto fosse capaz de demonstrar, mordendo-o, que era ouro de boa lei, embora no brilhasse.
     Ao cabo de uma longa estadia naquela primeira povoao, a av teve suficiente dinheiro para comprar um burro, e internou-se no deserto em busca de outros lugares 
mais propcios para pagar-se da dvida. Viajava numa padiola que tinham improvisado sobre o burro e protegia-se do Sol imvel com o guarda-chuva desvaretado que 
Erndira mantinha por cima da sua cabea. Atrs delas caminhavam quatro ndios de carga com os pedaos do acampamento: as esteiras de dormir, o trono restaurado, 
o anjo de alabastro e o ba com os restos dos Amadises. O fotgrafo perseguia a caravana na sua bicicleta, mas sem se aproximar, como se fosse para outra festa. 
Tinham passado seis meses desde o incndio quando a av pde ter uma viso inteira do negcio.
     - Se as coisas continuam assim - disse a Erndira -, ter-me-s pago a dvida dentro de oito anos, sete meses e onze dias. - Voltou a examinar os seus clculos, 
com os olhos fechados, ruminando os gros que tirava de uma fraldiqueira de bainha onde tinha tambm o dinheiro, e precisou: - Claro que tudo isso  sem contar com 
os salrios e a comida dos ndios, e outros gastos menores.
     Erndira, que caminhava ao passo do burro, angustiada pelo calor e o p, no fez nenhuma crtica s contas da av, mas teve de conter-se para no chorar.
     - Tenho vidro modo nos ossos - disse.
     - Tenta dormir.
     - Sim, av.
     Fechou os olhos, respirou a fundo uma baforada de ar escaldante e continuou a caminhar adormecida.
     Uma camioneta carregada de jaulas apareceu, espantando chibos entre a poeirada do horizonte, e o alvoroo dos pssaros foi um jorro de gua fresca na modorra 
dominical de San Miguel del Desierto. Ao volante ia um corpulento fazendeiro com a pele rachada pela intemprie e uns bigodes cor de esquilo que tinha herdado de 
algum bisav. Seu filho Ulisses, que viajava no outro banco, era um adolescente dourado, de olhos martimos e solitrios, com a identidade de um anjo furtivo. Ao 
holands chamou-lhe a ateno uma barraca de campanha em frente da qual esperavam vez todos os soldados da guarnio local. Estavam sentados no solo, bebendo de 
uma mesma garrafa, que passavam de boca em boca, e tinham ramos de amendoeira na cabea, como se estivessem emboscados para um combate. O holands perguntou na sua 
lngua:
     - Que diabos vendero ali?
     - Uma mulher - respondeu-lhe seu filho, com toda a naturalidade. - Chama-se Erndira.
     - Como o sabes?
     - Toda a gente o sabe no deserto - respondeu Ulisses.
     O holands desceu no hotelzinho da povoao. Ulisses ficou na camioneta, abriu com os dedos geis uma pasta de negcios que o seu pai tinha deixado no assento, 
tirou um mao de notas, meteu vrias nos bolsos e tornou a deixar tudo como estava. Nessa noite, enquanto o seu pai dormia, saiu pela janela do hotel e foi meter-se 
na bicha em frente da tenda de campanha de Erndira.
     A festa estava no seu esplendor. Os recrutas, embriagados, danavam ss, para no desperdiar a msica grtis, e o fotgrafo tirava retratos nocturnos com auxlio 
de magnsio. Enquanto controlava o negcio, a av contava notas no solo, repartia-as em maos iguais e arrumava-as dentro de um cesto. No havia nessa altura mais 
do que doze soldados, mas a bicha da tarde tinha crescido com clientes civis. Ulisses era o ltimo.
     O turno correspondia a um soldado de aparncia lgubre. A av no s lhe impediu a passagem, como evitou o contacto com o seu dinheiro.
     - No, filho - disse-lhe -, tu no entras, nem por todo o ouro do mundo. s ave de mau agouro.
     O soldado, que no era daquelas terras, surpreendeu-se.
     - Que  isso?
     - Que contagias a m sombra - disse a av. - Basta olhar-te para a cara.
     Afastou-o com a mo, mas sem lhe tocar, e deu passagem ao soldado seguinte.
     - Entra tu, valento - disse-lhe, com boa disposio. - E no te demores, que a ptria precisa de ti.
     O soldado entrou, mas tornou a sair imediatamente, porque Erndira queria falar com a av. Ela pendurou no brao o cesto de dinheiro e entrou na tenda de campanha, 
cujo espao era estreito, mas ordenado e limpo. No fundo, numa cama de tela, Erndira no podia reprimir o tremor do corpo, estava maltratada e suja de suor de soldados.
     - Av - soluou -, estou a morrer.
     A av tocou-lhe na testa e, ao constatar que no tinha febre, tentou consol-la.
     - J no faltam mais de dez militares - disse.
     Erndira desatou a chorar, com uns grunhidos de animal sobressaltado. A av ento soube que tinha transposto os limites do horror, e, acariciando-lhe a cabea, 
ajudou-a a acalmar-se.
     - O que sucede  que ests fraca - disse-lhe. - Anda, no chores mais, lava-te com gua de slvia, para que se te restaure o sangue.
     Saiu da tenda quando Erndira comeou a ficar serena e devolveu o dinheiro ao soldado que esperava. "Acabou-se por hoje", disse-lhe. "Volta amanh e dou-te 
o primeiro lugar." A seguir, gritou aos da fila:
     - Acabou-se rapazes. At amanh, s nove.
     Soldados e civis romperam fileiras com gritos de protesto. A av enfrentou-os de bom grado, mas brandindo a srio o bordo devastador.
     - Malcriados! Ordinrios! - gritava. - O que  que imaginam, que essa criatura  de ferro? Bem gostaria eu de v-los na situao dela. Pervertidos! Aptridas 
de merda!
     Os homens replicavam-lhe com insultos mais grosseiros, mas ela acabou por dominar a revolta e manteve-se de guarda com o bordo, at que levaram as mesas de 
fritadas e desmontaram as tendas de jogos. Dispunha-se a voltar  tenda quando viu Ulisses de corpo inteiro, s, no espao vago e escuro onde antes estivera a fila 
de homens. Tinha uma aura irreal e parecia visvel na penumbra pelo fulgor prprio da sua beleza.
     - E tu - disse-lhe a av -, onde deixaste as asas?
     - Quem as tinha era o meu av - respondeu Ulisses, com a sua naturalidade -, mas ningum o acredita.
     A av voltou a examin-lo com uma ateno enfeitiada. "Pois eu, sim, acredito", disse. "Tr-las postas amanh." Entrou na tenda e deixou Ulisses a arder no 
seu stio.
     Erndira sentiu-se melhor depois do banho. Tinha vestido uma combinao curta e bordada e estava a secar o cabelo para deitar-se, mas ainda fazia esforos para 
reprimir as lgrimas. A av dormia.
     Por trs da cama de Erndira, muito devagar, Ulisses assomou a cabea. Ela viu os olhos ansiosos e difanos, mas, antes de dizer alguma coisa, esfregou a cara 
com a toalha, para ter a prova de que no era uma iluso. Quando Ulisses pestanejou pela primeira vez, Erndira perguntou-lhe em voz muito baixa:
     - Quem s tu?
     Ulisses mostrou-se at aos ombros. "Chamo-me Ulisses", disse. Mostrou-lhe as notas roubadas e acrescentou:
     - Trago o dinheiro.
     Erndira apoiou as mos em cima da cama, aproximou a sua cara da de Ulisses e continuou a falar com ele como numa brincadeira de escola primria.
     - Tinhas de te pr na bicha - disse.
     - Esperei toda a noite - disse Ulisses.
     - Pois agora tens de esperar at amanh - disse Erndira. - Sinto-me como se me tivessem dado com trancas nos rins.
     Nesse instante a av comeou a falar adormecida.
     - Vai fazer vinte anos que choveu a ltima vez - disse.
     - Foi uma tormenta to terrvel que a chuva veio de mistura com gua do mar e a casa amanheceu cheia de peixes e de conchas, e o teu av Amads, que em paz 
descanse, viu uma manta luminosa a navegar pelo ar.
     Ulisses voltou a esconder-se por detrs da cama. Erndira teve um sorriso divertido.
     - Fica sossegado - disse-lhe. - Sempre fica como louca quando est adormecida, mas no acorda nem com um tremor de terra.
     Ulisses mostrou-se de novo. Erndira contemplou-o com um sorriso travesso, e at um pouco carinhoso, e tirou da esteira o lenol usado.
     - Vem - disse-lhe -, ajuda-me a mudar o lenol. Ento Ulisses saiu de trs da cama e segurou o lenol por uma ponta. Como era um lenol muito mais grande que 
a esteira, eram necessrios vrios tempos para o dobrar. No fim de cada dobra, Ulisses estava mais perto de Erndira.
     - Estava doido por ver-te - disse subitamente. - Toda a gente diz que s muito bela, e  verdade.
     - Mas vou morrer - disse Erndira.
     - A minha me diz que os que morrem no deserto no vo para o cu, mas para o mar - disse Ulisses.
     Erndira ps de lado o lenol sujo e cobriu a esteira com outro, limpo e engomado.
     - No conheo o mar - disse.
     -  como o deserto, mas com gua - disse Ulisses.
     - Ento no se pode andar.
     - O meu pap conheceu um homem que sim, que podia - disse Ulisses -, mas h muito tempo.
     Erndira estava encantada, mas queria dormir.
     - Se vens amanh bem cedo, pes-te no primeiro lugar- disse.
     - Parto com o meu pap pela madrugada - disse Ulisses.
     - E no voltam a passar por aqui?
     - Sabe-se l quando - disse Ulisses. - Agora passmos por acaso, porque nos perdemos no caminho da fronteira. Erndira olhou, pensativa, para a av adormecida.
     - Bem - decidiu -, d-me o dinheiro.
     Ulisses deu-lho. Erndira deitou-se na cama, mas ele permaneceu trmulo no seu stio: no instante decisivo, a sua determinao tinha fraquejado. Erndira tomou-o 
pela mo, para que se apressasse, e s ento reparou na sua tribulao. Ela conhecia esse medo.
     -  a primeira vez? - perguntou-lhe.
     Ulisses no respondeu, mas teve um sorriso desolado. Erndira tornou-se diferente.
     - Respira devagar - disse-lhe. -  sempre assim ao princpio, e depois nem ds por isso.
     Deitou-o ao seu lado, e, enquanto lhe tirava a roupa, foi-o apaziguando com recursos maternos.
     - Como  que te chamas?
     - Ulisses.
     -  nome de gringo - disse Erndira.
     - No, de navegante.
     Erndira descobriu-lhe o peito, deu-lhe beijinhos rfos, farejou-o.
     - Pareces todo de ouro - disse -, mas cheiras a flores.
     - Deve ser a laranjas - disse Ulisses.
     J mais tranquilo, teve um sorriso de cumplicidade.
     -Andamos com muitos pssaros, para despistar - acrescentou -, mas o que levamos para a fronteira  um contrabando de laranjas.
     - As laranjas no so contrabando - disse Erndira.
     - Estas sim - disse Ulisses. - Cada uma custa cinquenta mil pesos.
     Erndira riu-se pela primeira vez, desde havia muito tempo.
     - O que mais gosto de ti - disse -,  a seriedade com que inventas os disparates.
     Tinha-se tornado espontnea e loquaz como se a inocncia de Ulisses lhe tivesse mudado no s o humor, como tambm a ndole. A av, a to curta distncia da 
fatalidade, continuou a falar adormecida.
     - Por esses tempos, em princpios de Maro, trouxeram-te para casa - disse. - Parecias uma lagartixa envolvida em algodes. Amads, teu pai, que era jovem e 
bonito, estava to contente naquela tarde que mandou buscar cerca de vinte carroas carregadas de flores, e chegou gritando e atirando flores pela rua, at que todo 
o povoado ficou doirado de flores como o mar.
     Delirou vrias horas, em altos gritos, e com uma paixo obstinada. Mas Ulisses no a ouviu, porque Erndira o tinha amado tanto, e com tanta sinceridade, que 
tornou a am-lo pela metade do seu preo, enquanto a av delirava, e continuou a am-lo sem dinheiro at ao amanhecer.
     
     Um grupo de missionrios com os crucifixos levantados tinham-se fincado ombro a ombro no meio do deserto. Um vento to bravo como o da desgraa sacudia os seus 
hbitos de canhamao e as suas barbas agrestes, e mal lhes permitia manterem-se de p. Atrs deles estava o edifcio da misso, um promontrio colonial com um campanrio 
minsculo sobre os muros speros e caiados.
     O missionrio mais jovem, que comandava o grupo, apontou com o indicador uma greta natural no solo de argila vidrada.
     - No passem essa risca - gritou.
     Os quatro carregadores ndios que transportavam a av num palanquim de tbuas detiveram-se ao ouvir o grito.
     Apesar de ir mal sentada no soalho do palanquim e de ter o nimo entorpecido pelo p e o suor do deserto, a av mantinha-se na sua altivez. Erndira ia a p. 
Atrs do palanquim havia uma fila de oito ndios de carga, e por fim o fotgrafo na bicicleta.
     - O deserto no  de ningum - disse a av.
     -  de Deus - disse o missionrio -, e violais as suas santas leis com o vosso trfico imundo.
     A av reconheceu ento a forma e a dico peninsulares do missionrio e iludiu o encontro frontal, para no se sair mal contra a sua intransigncia. Voltou 
a ser ela mesma.
     - No entendo os teus mistrios, filho. O missionrio indicou Erndira.
     - Essa criatura  menor de idade.
     - Mas  minha neta.
     - Ainda pior - replicou o missionrio. - Pe-na debaixo da nossa custdia, s boas, ou teremos de recorrer a outros mtodos.
     A av no esperava que chegassem a tanto.
     - Est bem - cedeu, assustada. - Mas mais tarde ou mais cedo passarei, hs-de ver.
     Trs dias depois do encontro com os missionrios, a av e Erndira dormiam numa povoao prxima do convento, quando uns corpos sigilosos, mudos, rastejando 
como patrulhas de assalto, deslizaram para dentro da tenda de campanha. Eram seis novias ndias, fortes e jovens, com os hbitos de tela crua que pareciam fosforescentes 
nos lampejos de Lua. Sem fazer um nico rudo, cobriram Erndira com um toldo de mosquiteiro, levantaram-na, sem a acordar, e levaram-na embrulhada como um peixe 
grande e frgil capturado numa rede lunar.
     No houve um recurso que a av no tivesse intentado para resgatar a neta da tutela dos missionrios. S quando lhe falharam todos, desde os mais direitos aos 
mais torcidos, recorreu  autoridade civil, que era exercida por um militar. Encontrou-o no ptio da sua casa, com o torso nu, disparando com um rifle de guerra 
contra uma nuvem escura e solitria no cu ardente. Tentava perfur-la, para que chovesse, e os seus disparos eram encarniados e inteis, mas fez as pausas necessrias 
para escutar a av.
     - Eu no posso fazer nada - explicou-lhe, quando acabou de ouvi-la -, os padrezinhos, de acordo com a Concordata, tm direito a ficar com a menina at que seja 
maior de idade. Ou at que se case.
     - E ento para que o tm a si como alcaide? - perguntou a av.
     - Para que faa chover - disse o alcaide.
     A seguir, vendo que a nuvem se tinha posto fora do seu alcance, interrompeu os seus deveres oficiais e ocupou-se completamente da av.
     - O que a senhora precisa  de uma pessoa de muita influncia que responda por si - disse-lhe. - Algum que garanta a sua moralidade e os seus bons costumes, 
com uma carta assinada. No conhece o senador Onsimo Snchez?
     Sentada sob o sol puro num tamborete demasiado estreito para as suas ndegas siderais, a av respondeu com uma raiva solene:
     - Sou uma pobre mulher isolada na imensidade do deserto.
     O alcaide, com o olho direito torcido pelo calor, contemplou-a com d.
     - Ento no perca mais tempo, senhora - disse. - Levou-a o Diabo.
     No a levou,  de supor. Instalou a tenda em frente do convento da misso e sentou-se a pensar, como um guerreiro solitrio que mantivesse em estado de stio 
uma cidade fortificada. O fotgrafo ambulante, que a conhecia muito bem, carregou os seus utenslios na grade da bicicleta e disps-se a partir s, quando a viu 
em pleno sol, os olhos fixos no convento.
     - Vamos a ver quem se cansa primeiro - disse a av -, eles ou eu.
     - Eles esto ali h trezentos anos, e ainda aguentam - disse o fotgrafo. - Eu vou-me embora.
     S ento a av viu a bicicleta carregada.
     - Para onde vais?
     - Para onde me leve o vento - disse o fotgrafo, e foi-se embora. - O mundo  grande.
     A av suspirou.
     - No tanto como tu pensas, desmerecido.
     Mas no moveu a cabea, apesar do rancor, para no apartar a vista do convento. No a apartou durante muitos dias de calor mineral, durante muitas noites de 
ventos perdidos, durante o tempo da meditao, em que ningum saiu do convento. Os ndios construram um alpendre de palmas junto da tenda, e ali instalaram as suas 
redes, mas a av velava at muito tarde, cabeceando no seu trono e ruminando os cereais crus da sua fraldiqueira com a indolncia invencvel de um boi deitado.
     Uma noite passou muito perto dela uma fila de camies tapados, lentos, cujas nicas luzes eram umas grinaldas de focos de cores que lhes davam um tamanho espectral 
de altares sonmbulos. A av reconheceu-os imediatamente, porque eram iguais aos camies dos Amadises. O ltimo do squito atrasou-se, deteve-se e um homem desceu 
da cabina para arranjar alguma coisa na plataforma da carga. Parecia uma rplica dos Amadises, com um barrete de aba revirada, botas altas, duas cartucheiras cruzadas 
no peito, um fuzil militar e duas pistolas. Vencida por uma tentao irresistvel, a av chamou o homem.
     - No sabes quem sou? - perguntou-lhe.
     O homem iluminou-a sem piedade, com uma lanterna de pilhas. Contemplou durante um momento o rosto estragado pela viglia, os olhos apagados de cansao, o cabelo 
desbotado da mulher que, mesmo com a idade que tinha, teria podido dizer que tinha sido a mais bela do mundo. Depois de a examinar suficientemente, para se convencer 
de que no a tinha visto nunca, apagou a lanterna.
     - A nica coisa que sei com toda a certeza - disse -,  que voc no  a Virgem dos Remdios.
     - Exactamente o contrrio - disse a av, com uma voz doce. - Sou a Dama.
     O homem ps a mo na pistola, por puro instinto.
     - Qual dama?
     - A de Amads, o Grande.
     - Ento no  deste mundo - disse ele, tenso. - O que  que quer?
     - Que me ajudem a resgatar a minha neta, neta de Amads, o Grande, filha do nosso Amads, que est presa nesse convento.
     O homem dominou os seus receios.
     - Enganou-se na porta - disse. - Se pensa que somos capazes de contrariar os desgnios de Deus, voc no  a que diz que , nem sequer conheceu os Amadises, 
nem tem a mais pura ideia do que  o contrabando.
     Nessa madrugada a av dormiu menos que nas anteriores. Passou-a a ruminar, envolvida numa manta de l, enquanto o tempo da noite lhe confundia a memria e os 
delrios reprimidos lutavam por sair, embora estivesse acordada, e tinha de apertar o corao com a mo para que no a sufocasse a recordao de uma casa de praia 
com grandes flores coloridas, onde tinha sido feliz. Assim se manteve at que tocou o sino do convento e se acenderam as primeiras luzes nas janelas e o deserto 
se encheu do cheiro a po quente das matinas. S ento se abandonou ao cansao, enganada pela iluso de que Erndira se tinha levantado e estava a procurar a maneira 
de escapar-se para voltar para ela.
     Erndira, em contrapartida, no perdeu nem uma noite de sono desde que a levaram para o convento. Tinham-lhe cortado o cabelo com umas tesouras de podar, at 
lhe deixarem a cabea como uma escova, vestiram-lhe o rude balandrau de tela das reclusas e entregaram-lhe um balde de gua de cal e uma escova, para que caiasse 
os degraus das escadas cada vez que algum os pisasse. Era um trabalho de mula, porque havia um subir e descer incessante de missionrios cobertos de barro e novias 
de carga, mas Erndira sentiu-o como um domingo de todos os dias depois da galera mortal da cama. Alm disso, no era ela a nica esgotada quando anoitecia, pois 
aquele convento no estava consagrado  luta contra o Demnio, mas  luta contra o deserto. Erndira tinha visto as novias indgenas desbravando as vacas com pancadas 
no pescoo, para ordenh-las nos estbulos, saltando dias inteiros sobre as tbuas para espremer os queijos, assistindo as cabras num parto difcil. Tinha-as visto 
transpirar como estivadores curtidos tirando a gua do poo, regando  mo uma horta temerria que outras novias tinham lavrado com enxades para plantar legumes 
no pedernal do deserto. Tinha visto o inferno terrestre dos fornos do po e os alojamentos de pranchas. Tinha visto uma freira a perseguir um porco pelo ptio, viu-a 
escorregar com o porco chimarro agarrado pelas orelhas e rebolar-se num barrocal sem o largar, at que duas novias com aventais de couro a ajudaram a domin-lo 
e uma delas o degolou com uma faca de magarefe e todas ficaram empapadas de sangue e de lodo. Tinha visto no pavilho afastado do hospital as freiras tsicas, com 
os seus camises de mortas, que esperavam a ltima ordem de Deus bordando lenis matrimoniais nos terraos, enquanto os homens da misso predicavam no deserto. 
Erndira vivia na sua penumbra, descobrindo outras formas de beleza e de horror que nunca tinha imaginado no mundo estreito da cama, mas nem as novias mais bravias 
nem as mais persuasivas tinham conseguido que dissesse uma palavra desde que a levaram para o convento. Uma manh, quando estava misturando a cal com a gua num 
balde, ouviu uma msica de cordas que parecia uma luz mais difana na luz do deserto. Cativada pelo milagre, assomou a um salo imenso e vazio de paredes nuas e 
janelas grandes, por onde entrava a jorros e ficava detida a claridade deslumbrante de Junho, e no centro do salo viu uma freira bela que ainda no tinha visto, 
tocando uma oratria de Pscoa no clavicrdio. Erndira escutou a msica sem pestanejar, com a alma num fio, at que tocou o sino para a refeio. Depois do almoo, 
enquanto branqueava a escada com a broxa de esparto, esperou que todas as novias acabassem de subir e descer, ficou s, aonde ningum a pudesse ouvir, e ento falou 
pela primeira vez desde que tinha entrado no convento.
     - Sou feliz - disse.
     De maneira que, para a av, se tinham acabado as esperanas de que Erndira se escapasse para voltar para ela, mas manteve o seu assdio de granito, sem tomar 
nenhuma deciso, at ao Domingo de Pentecostes. Por essa poca os missionrios percorriam o deserto  procura de concubinas grvidas, para as casar. Iam at s povoaes 
mais esquecidas numa camionetazinha decrpita, com quatro homens da tropa bem armados e um arcaz com gneros de pacotilha. O mais difcil daquela caa de ndios 
era convencer as mulheres, que se defendiam da graa divina com o argumento verdico de que os homens se sentiam com direito a exigir s esposas legtimas um trabalho 
mais pesado que s concubinas, enquanto eles dormiam esparramados nas redes. Era preciso seduzi-las com recursos de engano, dissolvendo-lhes a vontade de Deus no 
xarope do seu prprio idioma, para que a achassem menos spera, mas at as mais manhosas acabavam por se convencer com umas arrecadas de ouropel. Aos homens, em 
troca, uma vez obtido o assentimento da mulher, tiravam-nos com coronhadas das redes e levavam-nos amarrados na plataforma de carga, para cas-los  fora.
     Durante vrios dias a av viu passar em direco do convento o camiozinho carregado de ndias grvidas, mas no reconheceu a sua oportunidade. Teve-a no prprio 
Domingo de Pentecostes, quando ouviu os foguetes e o repenicar dos sinos, e viu a multido miservel e alegre que passava para a festa, e viu que entre as multides 
havia mulheres grvidas com vus e coroas de noiva, levando pelo brao os maridos de acaso para torn-los legtimos na boda colectiva.
     Entre os ltimos do desfile passou um rapaz de corao inocente, de cabelo ndio cortado como uma otuma (Espcie de abbora americana que, depois de seca, 
serve para conter lquidos. (N. da T.) e vestido com andrajos, que levava na mo um crio pascal com um lao de seda. A av chamou-o.
     - Explica-me uma coisa, filho - perguntou-lhe, com a sua voz mais terna. - Que vais fazer com essa cumbiambal (Dana da Amrica do Sul em que os bailarinos 
levam um crio na mo. (N. da T.)
     O rapaz sentia-se intimidado com o crio e tinha dificuldade em fechar a boca, por causa dos seus dentes de burro.
     -  que os padrezinhos vo dar-me a primeira comunho - disse.
     - Quanto te pagaram?
     - Cinco pesos.
     A av tirou da fraldiqueira um rolo de notas, que o rapaz olhou assombrado.
     - Eu vou dar-te vinte - disse a av. - Mas no para que faas a primeira comunho, e sim para que te cases.
     - E isso com quem?
     - Com a minha neta.
     Foi assim que Erndira se casou no ptio do convento, com o balandrau de reclusa e uma mantilha de renda que lhe ofereceram as novias, e sem saber sequer como 
se chamava o esposo que a sua av lhe tinha comprado. Suportou com uma esperana incerta o tormento dos joelhos no solo de salitre, a pestilncia de couro de cabrito 
das duzentas noivas grvidas, o castigo da Epstola de So Paulo martelada em latim sob a cancula imvel, porque os missionrios no encontraram recursos para opor-se 
 artimanha da boda imprevista, mas tinham-lhe prometido uma ltima tentativa para a manter no convento. No obstante, no fim da cerimnia, e em presena do prefeito 
apostlico, do alcaide militar que disparava contra as nuvens, do seu esposo recente e da sua av impassvel, Erndira sentiu-se de novo sob o encantamento que a 
tinha dominado desde o seu nascimento. Quando lhe perguntaram qual era a sua vontade livre, verdadeira e definitiva, no teve nem um suspiro de hesitao.
     - Quero ir-me embora - disse. E esclareceu, apontando para o esposo: - Mas no vou com ele, e sim com a minha av.
     
     Ulisses tinha perdido a tarde a tentar roubar uma laranja na plantao de seu pai, pois este no lhe tirou a vista de cima enquanto podavam as rvores doentes 
e a sua me vigiava-o de casa. De maneira que renunciou ao seu intento, pelo menos por aquele dia, e ficou de m vontade a ajudar o seu pai, at que acabaram de 
podar as ltimas laranjeiras.
     A extensa plantao era discreta e escondida e a casa, de madeira com tecto de lato, tinha redes de cobre nas janelas e um terrao grande suportado por estacas, 
com plantas primitivas de flores intensas. A me de Ulisses estava no terrao, deitada numa cadeira de balano vienense, com folhas esfumaadas nas tmporas, para 
aliviar a dor de cabea, e o seu olhar de ndia pura seguia os movimentos do filho como um feixe de luz invisvel at aos lugares mais esquivos do laranjal. Era 
muito bela, muito mais jovem que o marido, e no s continuava a vestir-se com o camiso da tribo, como tambm conhecia os segredos mais antigos do seu sangue.
     Quando Ulisses voltou a casa com os ferros de podar, sua me pediu-lhe o medicamento das quatro, que estava numa mesinha prxima. Mal ele lhes tocou, o copo 
e o frasco mudaram de cor. A seguir tocou por simples travessura numa jarra de cristal que estava na mesa com outros copos, e tambm a jarra se tornou azul. A sua 
me observou-o enquanto tomava o remdio, e quando teve a certeza de que no era um delrio da sua dor perguntou-lhe em lngua guajira:
     - H quanto tempo te acontece?
     - Desde que voltmos do deserto - disse Ulisses, tambm em guajiro. -  s com as coisas de vidro.
     Para o demonstrar, tocou um a seguir aos outros nos copos que estavam na mesa, e todos mudaram de cores diferentes.
     - Essas coisas s acontecem por amor - disse a me. - Quem ?
     Ulisses no respondeu. O seu pai, que no sabia a lngua guajira, passava nesse momento pelo terrao com um cacho de laranjas.
     - De que falam? - perguntou a Ulisses em holands.
     - De nada de especial - respondeu Ulisses.
     A me de Ulisses no sabia o holands. Quando o seu marido entrou em casa, perguntou ao filho em guajiro:
     - Que te disse?
     - Nada de especial - disse Ulisses.
     Perdeu o seu pai de vista quando ele entrou em casa, mas tornou a v-lo, por uma janela, dentro do escritrio. A me esperou at ficar a ss com Ulisses, e 
ento insistiu:
     - Diz-me quem .
     - No  ningum - respondeu Ulisses.
     Respondeu distrado, porque estava pendente dos movimentos do seu pai dentro do escritrio. Tinha-o visto pr as laranjas sobre a caixa forte para compor a 
chave do segredo. Mas, enquanto ele vigiava seu pai, a sua me vigiava-o a ele.
     - H muito tempo que no comes po - observou ela.
     - No me agrada.
     O rosto da me adquiriu de repente uma vivacidade inslita. "Mentira", disse. " porque ests a padecer de amor, e os que esto assim no podem comer po." 
A sua voz, como os seus olhos, tinha passado da splica  ameaa.
     - Mais vale que me digas quem  - disse -, ou dou-te  fora uns banhos de purificao.
     No escritrio, o holands abriu a caixa forte, meteu l as laranjas e tornou a fechar a porta blindada. Ulisses afastou-se ento da janela e respondeu  sua 
me com impacincia:
     - J te disse que no  ningum. Se no me acreditas, pergunta-o ao meu pai.
     O holands apareceu na porta do escritrio, acendendo o cachimbo de navegante e com a sua Bblia carcomida debaixo do brao. A mulher perguntou-lhe em castelhano:
     - Quem conheceram no deserto?
     - Ningum - respondeu-lhe o seu marido, um pouco nas nuvens. - Se no me acreditas, pergunta-o a Ulisses.
     Sentou-se no fundo do corredor a chupar o cachimbo, at que se lhe esgotou o tabaco. Depois abriu a Bblia ao acaso e recitou fragmentos salteados durante quase 
duas horas, num holands fluido e retumbante.
      meia-noite, Ulisses continuava a pensar com tanta intensidade que no podia dormir. Revirou-se na rede mais uma hora, tentando dominar a dor das recordaes, 
at que a prpria dor lhe deu a fora que lhe fazia falta para decidir. Ento vestiu as calas de vaqueiro, a camisa de quadrados escoceses e as botas de montar 
e saltou pela janela e fugiu de casa na camioneta carregada de pssaros. Ao passar pela plantao arrancou as trs laranjas maduras que no tinha podido roubar durante 
a tarde.
     Viajou pelo deserto o resto da noite, e, ao amanhecer, perguntou pelas povoaes e povoados qual era o rumo de Erndira, mas ningum lhe dava notcias. Por 
fim informaram-no de que ia atrs da comitiva eleitoral do senador Onsimo Snchez, e que este devia encontrar-se naquele dia em Nueva Castilla. No o encontrou 
ali, mas na povoao seguinte, e j Erndira no andava com ele, pois a av tinha conseguido que o senador engolisse a sua moralidade com uma carta escrita pela 
sua mo, e ia-se abrindo com ela as portas melhor trancadas do deserto. No terceiro dia encontrou-se com o homem do correio nacional, e este indicou-lhe a direco 
que procurava.
     - Vo para o mar - disse-lhe. - E apressa-te, que a inteno da fodida velha  passar para a ilha de Aruba.
     Nesse rumo, Ulisses divisou ao cabo de meia jornada a capa ampla e maltratada que a av tinha comprado a um circo em falncia. O fotgrafo errante tinha tornado 
ajuntar-se a ela, convencido de que, com efeito, o mundo no era to grande como pensava, e tinha instalado cerca da barraca os seus panos de fundo idlicos. Uma 
banda de msicos de charanga cativava os clientes de Erndira com uma valsa taciturna.
     Ulisses esperou o seu turno para entrar, e a primeira coisa que lhe chamou a ateno foi a ordem e a limpeza no interior da barraca. A cama da av tinha recuperado 
o seu esplendor vice-real, a esttua do anjo estava no seu lugar, junto ao ba funerrio dos Amadises, e havia, alm disso, uma banheira de estanho com patas de 
leo. Deitada no seu novo leito de dossel, Erndira estava nua e plcida e irradiava um fulgor infantil sob a luz filtrada da barraca. Dormia com os olhos abertos. 
Ulisses deteve-se junto dela, com as laranjas na mo, e reparou que o estava a olhar sem v-lo. Ento passou a mo diante dos seus olhos e chamou-a pelo nome que 
tinha inventado para pensar nela:
     - Ardnere.
     Erndira acordou. Sentiu-se nua diante de Ulisses, soltou um guincho surdo e tapou-se com o lenol at  cabea.
     - No olhes para mim - disse. - Estou horrvel.
     - Ests toda cor de laranja - disse Ulisses. Ps as frutas  altura dos seus olhos, para que ela comparasse. - Olha.
     Erndira destapou os olhos e constatou que, com efeito, as laranjas tinham a sua cor.
     - Agora no quero que fiques - disse.
     - S entrei para mostrar-te isto - disse Ulisses. - Repara. Abriu uma laranja com as unhas, partiu-a com as duas mos, e mostrou a Erndira o interior: cravado 
no corao da fruta, estava um diamante legtimo.
     - Estas so as laranjas que levamos  fronteira - disse.
     - Mas so laranjas vivas! - exclamou Erndira.
     - Claro - sorriu Ulisses. - Semeia-as o meu pai. Erndira no o podia acreditar. Destapou a cara, pegou no diamante com os dedos e contemplou-o, assombrada.
     - Com trs assim damos a volta ao mundo - disse Ulisses. Erndira devolveu-lhe o diamante, com um ar de desalento. Ulisses insistiu.
     - Alm disso, tenho uma camioneta - disse. - E ainda... Olha!
     Tirou de baixo da camisa uma pistola arcaica.
     - No posso ir-me embora antes de dez anos - disse
     Erndira.
     - Irs - disse Ulisses. - Esta noite, quando adormecer a baleia branca, eu estarei l fora, piando como a coruja.
     Fez uma imitao to perfeita do piar da coruja que os olhos de Erndira sorriram pela primeira vez.
     -  minha av - disse.
     - A coruja?
     - A baleia.
     Ambos se riram do engano, mas Erndira retomou o fio.
     - Ningum pode partir para nenhuma parte sem a autorizao da sua av.
     - No  preciso dizer-lhe nada.
     - De todas as maneiras, vir a sab-lo - disse Erndira. - Ela sonha as coisas.
     - Quando comear a sonhar que te vais embora, j estaremos do outro lado da fronteira. Passaremos como os contrabandistas... - disse Ulisses.
     Empunhando a pistola com um -vontade de bandido de cinema, imitou o som dos disparos, para animar Erndira com a sua audcia. Ela no disse nem que sim nem 
que no, mas os seus olhos suspiraram, e despediu Ulisses com um beijo. Ulisses, comovido, murmurou:
     - Amanh veremos passar os navios.
     
     Naquela noite, pouco depois das sete, Erndira estava a pentear a av quando voltou a soprar o vento da sua desgraa. Ao abrigo da barraca estavam os ndios 
carregadores e o director da charanga esperando o pagamento do seu salrio. A av acabou de contar as notas de um arcaz que tinha cerca de si, e, depois de consultar 
um caderno de contas, pagou ao chefe dos ndios.
     - Aqui tens - disse-lhe -, vinte pesos por semana, menos oito pela comida, menos trs pela gua, menos cinquenta centavos pelo tratamento das camisas novas, 
so oito e cinquenta. Conta-os bem.
     O ndio chefe contou o dinheiro, e todos se retiraram com uma reverncia.
     - Obrigado, branca.
     O seguinte era o director dos msicos. A av consultou o caderno de contas e dirigiu-se ao fotgrafo, que estava a tentar remendar o fole da mquina com emplastros 
de guta-percha.
     - Em que ficamos - disse-lhe -, pagas ou no pagas a quarta parte da msica?
     O fotgrafo nem sequer levantou a cabea para responder.
     - A msica no se v nos retratos.
     - Mas desperta nas pessoas a vontade de tirar retratos - replicou a av.
     - Pelo contrrio - disse o fotgrafo -, faz-lhes recordar os mortos, e depois ficam nos retratos com os olhos fechados.
     O director da charanga interveio.
     - O que faz fechar os olhos no  a msica - disse -, so os relmpagos de tirar retratos  noite.
     -  a msica - insistiu o fotgrafo.
     A av ps fim  discusso. "No sejas estpido", disse ao fotgrafo. "Repara como as coisas correm bem ao senhor Onsimo Snchez, e  graas aos msicos que 
leva." A seguir, de uma maneira dura, concluiu:
     - De maneira que pagas a parte que te corresponde ou continuas s com o teu destino. No  justo que essa pobre criatura acarrete com todo o peso dos gastos.
     - Sigo s o meu destino - disse o fotgrafo. - Ao fim e ao cabo, eu o que sou  um artista.
     A av encolheu os ombros e ocupou-se do msico. Entregou-lhe um mao de notas, de acordo com a cifra escrita no caderno.
     - Duzentas e cinquenta e quatro peas - disse-lhe -, a cinquenta centavos cada uma, mais trinta e duas nos domingos e feriados, a sessenta centavos cada uma, 
so cento e cinquenta e seis e vinte.
     O msico no recebeu o dinheiro.
     - So cento e oitenta e dois e quarenta - disse. - As valsas so mais caras.
     - E isso porqu?
     - Porque so mais tristes - disse o msico. A av obrigou-o a pegar no dinheiro.
     - Pois ento esta semana tocas-nos duas peas alegres por cada valsa que te devo, e ficamos em paz.
     O msico no compreendeu a lgica da av, mas aceitou as contas enquanto desenredava o enredo. Nesse momento, o vento espavorido quase desenraizou a barraca, 
e, no silncio que deixou na sua passagem, ouviu-se l fora, ntido e lgubre, o piar do mocho.
     Erndira no soube como fazer para dissimular a sua perturbao. Fechou a arca do dinheiro e escondeu-a debaixo da cama, mas a av reparou-lhe no tremor da 
mo quando lhe entregou a chave. "No te assustes", disse-lhe. "H sempre corujas nas noites de vento." Contudo, no deu mostras da mesma convico quando viu sair 
o fotgrafo com a cmara s costas.
     - Se queres, fica at amanh - disse-lhe -, a morte anda  solta esta noite.
     Tambm o fotgrafo reparou no piar da coruja, mas no mudou de ideias.
     - Fica, filho - insistiu a av -, quando por mais no seja, pelo carinho que te tenho.
     - Mas no pago a msica - disse o fotgrafo.
     - Ah, no - disse a av. - Isso no.
     - Est a ver? - disse o fotgrafo. - Voc no gosta de ningum.
     A av empalideceu de raiva.
     - Ento pe-te a andar - disse. - Filho da puta! Sentia-se to ultrajada que continuou a disparatar contra ele enquanto Erndira a ajudava a deitar-se. "Filho 
de m me", resmungava. "O que saber esse bastardo do corao alheio." Erndira no lhe prestou ateno, pois a coruja chamava-a com uma insistncia tenaz nas pausas 
do vento e estava atormentada pela incerteza. A av acabou de deitar-se com o mesmo ritual que era de rigor na manso antiga, e, enquanto a neta a abanava, conseguiu 
sobrepor-se ao rancor e tornou a respirar os seus ares estreis.
     - Tens de madrugar - disse ento -, para me ferveres a infuso do banho antes que cheguem as pessoas.
     - Sim, av.
     - Com o tempo que te sobre, lava a muda suja dos ndios, e assim teremos alguma coisa mais para descontar-lhes na semana que entra.
     - Sim, av - disse Erndira.
     - E dorme devagar, para no te cansares, que amanh  quinta-feira, o dia mais longo da semana.
     - Sim, av.
     - E pes a comida  avestruz.
     - Sim, av - disse Erndira.
     Deixou o leque na cabeceira da cama e acendeu duas velas de altar diante do altar dos seus mortos. A av, j adormecida, deu-lhe a ordem atrasada.
     - No te esqueas de acender as velas dos Amadises.
     - Sim, av.
     Erndira sabia nessa altura que no acordaria, porque tinha comeado a delirar. Ouviu os ladridos do vento em volta da barraca, mas tambm dessa vez no tinha 
reconhecido o sopro da sua desgraa. Saiu para a noite, at que voltou a piar a coruja, e o seu instinto de liberdade prevaleceu finalmente contra o feitio da av.
     No tinha dado cinco passos fora da barraca quando encontrou o fotgrafo, que estava a amarrar os seus aparelhos na grade da bicicleta. O seu sorriso cmplice 
tranquilizou-a.
     - Eu no sei nada - disse o fotgrafo -, no vi nada, nem pago a msica.
     Despediu-se com uma bno universal. Erndira correu ento em direco do deserto, decidida para sempre, e perdeu-se nas trevas do vento, onde piava a coruja.
     Dessa vez a av recorreu imediatamente  autoridade civil. O comandante do piquete de preveno local saltou da rede s seis da manh, quando ela lhe ps diante 
dos olhos a carta do senador. O pai de Ulisses esperava na porta.
     - Porra, como quer que a leia - gritou o comandante -, se no sei ler?!
     -  uma carta de recomendao do senador Onsimo Snchez - disse a av.
     Sem mais perguntas, o comandante despendurou um rifle que tinha perto da rede e comeou a gritar ordens aos seus agentes. Cinco minutos depois estavam todos 
dentro de uma camioneta militar, voando em direco  fronteira, com um vento contrrio que apagava os rastos dos fugitivos. No assento da frente, junto do condutor, 
viajava o comandante. Atrs estava o holands, com a av, e em cada estribo ia um agente armado.
     Muito prximo da povoao detiveram uma caravana de camies cobertos com lona impermevel. Vrios homens que viajavam escondidos na plataforma da carga levantaram 
a lona e apontaram para a camioneta com metralhadoras e rifles de guerra. O comandante perguntou ao condutor do primeiro camio a que distncia tinha encontrado 
uma camioneta de fazenda carregada de pssaros.
     O condutor arrancou, antes de responder.
     - Ns no somos chibos - disse, indignado -, somos contrabandistas.
     O comandante viu passar muito perto dos seus olhos os canos enegrecidos das metralhadoras, levantou os braos e sorriu.
     - Pelo menos - gritou-lhes -, tenham a decncia de no circular em pleno sol.
     O ltimo camio levava um letreiro no pra-choques posterior: "Penso em ti Erndira".
     O vento ia-se tornando mais rido  medida que avanavam para o norte, e o sol era mais forte com o vento, e era difcil respirar, por causa do calor e do p, 
dentro da camioneta fechada.
     A av foi a primeira que avistou o fotgrafo: pedalava no mesmo sentido em que eles voavam, sem outro amparo contra a insolao que um leno amarrado na cabea.
     - L est - apontou-o -, esse foi o cmplice. Filho da puta.
     O comandante ordenou a um dos agentes do estribo que se encarregasse do fotgrafo.
     - Agarra-o e esperas-nos aqui - disse-lhe. -J voltamos.
     O agente saltou do estribo e deu duas vozes de parar ao fotgrafo. O fotgrafo no o ouviu, pelo vento contrrio. Quando a camioneta o ultrapassou, a av fez-lhe 
um gesto enigmtico, mas ele confundiu-o com uma saudao, sorriu e disse-lhe adeus com a mo. No ouviu o disparo. Deu uma cambalhota no ar e caiu morto em cima 
da bicicleta, com a cabea destroada por uma bala de rifle que nunca soube de onde lhe veio.
     Antes do meio-dia comearam a ver as penas. Passavam no vento, e eram penas de pssaros novos, e o holands conheceu-as, porque eram as dos seus pssaros depenados 
pelo vento. O condutor corrigiu o rumo, carregou a fundo no pedal, e antes de meia hora avistaram a camioneta no horizonte.
     Quando Ulisses viu aparecer o carro militar no espelho do retrovisor, fez um esforo para aumentar a distncia, mas o motor no dava para mais. Tinham viajado 
sem dormir e estavam estragados de cansao e de sede. Erndira, que dormitava no ombro de Ulisses, acordou assustada. Viu a camioneta que estava quase a alcan-los 
e com uma determinao cndida pegou na pistola do porta-luvas.
     - No serve - disse Ulisses. - Era de Francis Drake.
     Puxou-lhe o gatilho vrias vezes e atirou-a pela janela. A patrulha militar ultrapassou a destrambelhada camioneta carregada de pssaros depenados pelo vento, 
fez uma curva forada e barrou-lhe o caminho.
     
     Conheci-as por essa poca, que foi a de mais grande esplendor, apesar de que no viria a esquadrinhar os pormenores da sua vida seno muitos anos depois, quando 
Rafael Escalona revelou numa cano o desenlace terrvel do drama e me pareceu que era bom para contar. Eu andava a vender enciclopdias e livros de medicina pela 
provncia de Riohacha. lvaro Cepeda Samudio, que andava tambm por esses rumos a vender mquinas de cerveja gelada, levou-me na sua camioneta pelas povoaes do 
deserto, com a inteno de falar-me de no sei qu, e falmos tanto de nada e tommos tanta cerveja que sem saber quando nem por onde atravessmos o deserto inteiro 
e chegmos at  fronteira. Ali estava a barraca do amor errante, sob as telas com letreiros penduradas: "Erndira  melhor", "V e volte, Erndira espera-o", "Isto 
no  vida sem Erndira". A bicha interminvel e ondulante, composta por homens de raas e condies diferentes, parecia uma serpente de vrtebras humanas que dormitava 
atravs de solares e praas, por entre bazares coloridos e mercados barulhentos, e saa das ruas daquela cidade fragorosa de traficantes de passagem. Cada rua era 
uma casa de jogo pblica, cada casa uma taberna, cada porta um refgio de desertores. As numerosas msicas indecifrveis e os preges lanados formavam um s estrondo 
de pnico no calor alucinante.
     Entre a multido de desertores e fura-vidas estava Blacamn o Bom, encarrapitado numa mesa, pedindo uma cobra verdadeira para demonstrar em carne prpria um 
antdoto da sua inveno. Estava a mulher que se tinha convertido em aranha por desobedecer aos seus pais, que por cinquenta centavos se deixava tocar para que vissem 
que no havia engano e respondia s perguntas que quisessem fazer-lhe sobre a sua desventura. Estava um enviado da vida eterna que anunciava a chegada iminente do 
pavoroso morcego sideral, cujo ardente ofego de enxofre havia de transtornar a ordem da natureza e faria vir  superfcie os mistrios do mar.
     O nico asilo de sossego era o bairro de tolerncia, aonde unicamente chegavam os restos do fragor urbano. Mulheres vindas dos quatro quadrantes da rosa nutica 
bocejavam de tdio nos abandonados sales de dana. Tinham feito a sesta sentadas, sem que ningum as despertasse para am-las, e continuavam esperando o morcego 
sideral sob os ventiladores de cruzes atarraxadas no cu limpo. De repente uma delas levantou-se e foi a um balco de amores-perfeitos que dava para a rua. Por ali 
passava a bicha dos pretendentes de Erndira.
     - Vamos a saber - gritou-lhes a mulher. - Que  que tem essa que ns no temos?
     - Uma carta de um senador - gritou algum. Atradas pelos gritos e gargalhadas, outras mulheres vieram debruar-se ao balco.
     - H dias que essa bicha est assim - disse uma delas. - Calcula, a cinquenta pesos cada um!
     A que tinha ido primeiro decidiu:
     - Pois eu vou ver o que  que tem de ouro essa sete-mesinha.
     - Eu tambm - disse outra. - Ser melhor do que estar aqui a aquecer gratuitamente o assento.
     Pelo caminho, juntaram-se outras, e quando chegaram  tenda de Erndira tinham formado uma comparsaria buliosa. Entraram sem anunciar-se, espantaram com almofadas 
o homem que encontraram gastando o melhor que podia o dinheiro que tinha pago e carregaram com a cama de Erndira e levaram-na em andor para a rua.
     - Isto  um insulto - gritava a av. - Cfila de desleais! Covardes! - E a seguir, contra os homens da bicha: - E vocs, medricas, onde tm os testculos, que 
permitem este abuso contra uma pobre criatura indefesa. Maricas!
     Continuou a gritar at onde lhe chegava a voz, distribuindo pancadas com o bordo sobre os que se punham ao seu alcance, mas a sua clera era inaudvel entre 
os gritos e os assobios de troa da multido.
     Erndira no pde escapar ao escrnio porque lho impediu a corrente de co com que a av a acorrentava a uma barra da cama desde que tentou fugir. Mas no lhe 
fizeram nenhum mal. Mostraram-na no seu altar de dossel pelas ruas de mais estrpito, como o passeio alegrico da penitente acorrentada, e por fim puseram-na em 
cmara-ardente no centro da praa maior. Erndira estava enroscada, com a cara escondida, mas sem chorar, e assim ficou no sol terrvel da praa, mordendo de vergonha 
e de raiva a corrente de co do seu mau destino, at que algum lhe fez a caridade de tap-la com uma camisa.
     Essa foi a nica vez que as vi, mas soube que tinham permanecido naquela cidade fronteiria sob o amparo da fora pblica, at que rebentaram as arcas da av, 
e que ento abandonaram o deserto em direco do mar. Nunca se viu tanta opulncia junta por aqueles reinos de pobres. Era um desfile de carroas puxadas por bois, 
sobre as quais se amontoavam algumas rplicas de pacotilha do mobilirio luxuoso desaparecido com o desastre da manso, e no s os bustos imperiais e os relgios 
raros, mas tambm um piano em segunda mo e uma grafonola com os discos da nostalgia. Uma recua de ndios ocupava-se da carga e uma banda de msicos anunciava nas 
povoaes a sua chegada triunfal.
     A av viajava num palanquim com grinaldas de papel, ruminando os cereais da fraldiqueira,  sombra de um plio de igreja. O seu tamanho monumental tinha aumentado, 
porque trazia vestido debaixo da blusa um colete de lona de veleiro, no qual guardava os lingotes de ouro como se metem as balas num cinturo de cartucheiras. Erndira 
estava junto dela, vestida com tecidos vistosos e com franjas de estopa penduradas, mas sempre com a corrente de co no tornozelo.
     - No te podes queixar - tinha-lhe dito a av, ao sair da cidade fronteiria. - Tens roupa de rainha, uma cama de luxo, uma banda de msica particular e catorze 
ndios ao teu servio. No te parece magnfico?
     - Sim, av.
     - Quando eu te faltar - prosseguiu a av -, no ficars  merc dos homens, porque ters a tua prpria casa numa cidade de importncia. Sers livre e feliz.
     Era uma viso nova e imprevista do futuro. Em contrapartida, no tinha voltado a falar da dvida de origem, cujos pormenores se retorciam e cujos prazos aumentavam, 
 medida que se tornavam mais complicadas as despesas do negcio. No obstante, Erndira no emitiu um suspiro que permitisse vislumbrar o seu pensamento. Submeteu-se 
em silncio ao tormento da cama nos charcos de salitre, na madorna das povoaes lacustres, na cratera lunar das minas de talco, enquanto a av lhe cantava a viso 
do futuro, como se a estivesse a decifrar nos baralhos. Uma tarde, no fim de um desfiladeiro opressivo, sentiram um vento de loureiros antigos, e escutaram farrapos 
de dilogos de Jamaica, e sentiram umas nsias de vida, e um n no corao, e era que tinham chegado ao mar.
     - A o tens - disse a av, respirando a luz de vidro do Caribe ao cabo de meia vida de desterro. - No te agrada?
     - Sim, av.
     Ali instalaram a barraca. A av passou a noite falando sem sonhar, e s vezes confundia as suas nostalgias com a clarividncia do futuro. Dormiu at mais tarde 
que de costume e acordou sossegada pelo rumor do mar. Contudo, quando Erndira lhe estava a dar banho, tornou a fazer-lhe prognsticos sobre o futuro, e era uma 
clarividncia to febril que parecia um delrio de viglia.
     - Sers uma proprietria senhorial - disse-lhe. - Uma dama de linhagem venerada pelas tuas protegidas e contentada e honrada pelas mais altas autoridades. Os 
capites dos barcos mandar-te-o postais de todos os portos do mundo.
     Erndira no a escutava. A gua tpida perfumada de orgo jorrava na banheira por um canal alimentado pelo exterior. Erndira recolhia-a com uma totuma impenetrvel, 
sem querer respirar, e deitava-a sobre a av com uma das mos, enquanto a ensaboava com a outra.
     - O prestgio da tua casa voar de boca em boca desde o cordo das Antilhas at aos reinos de Holanda - dizia a av. - E h-de ser mais importante que a casa 
presidencial, porque nela se discutiro os assuntos do governo e se preparar o destino da nao.
     De repente, a gua extinguiu-se no canal. Erndira saiu da barraca para averiguar o que se passava e viu que o ndio encarregado de deitar a gua no canal estava 
a cortar lenha na cozinha.
     - Acabou-se - disse o ndio. - Tem de se arrefecer mais gua.
     Erndira foi at ao fogareiro, onde estava outra panela grande com folhas aromticas fervidas. Envolveu as mos num trapo e certificou-se de que podia levantar 
a panela sem a ajuda do ndio.
     - Vai-te embora - disse. - Eu deito a gua. Esperou at que o ndio sasse da cozinha. Ento tirou do lume a panela fervente, levantou-a com muito custo at 
 altura do canal, e j ia a deitar a gua mortfera na conduta da banheira quando a av gritou no interior da barraca:
     - Erndira!
     Foi como se a tivesse visto. A neta, assustada pelo grito, arrependeu-se no instante final.
     - J vou, av - disse. - Estou a arrefecer a gua.
     Naquela noite esteve cismando at muito tarde, enquanto a av cantava, adormecida, com o colete de ouro. Erndira contemplou-a da sua cama com uns olhos intensos, 
que pareciam de gato na penumbra. A seguir deitou-se como um afogado, com os braos no peito e os olhos abertos, e chamou com toda a fora da sua voz interior:
     - Ulisses.
     Ulisses acordou subitamente na casa do laranjal. Tinha ouvido a voz de Erndira com tanta nitidez que a procurou nas sombras do quarto. Ao cabo de um instante 
de reflexo, fez um embrulho com as suas roupas e os seus sapatos e abandonou o quarto de dormir. Tinha atravessado o terrao quando o surpreendeu a voz de seu pai:
     - Para onde vais?
     Ulisses viu-o, iluminado de azul pela Lua.
     - Para o mundo - respondeu.
     - Desta vez no to vou impedir - disse o holands. - Mas aviso-te de uma coisa: seja aonde for que vs, perseguir-te- a maldio de teu pai.
     - Assim seja - disse Ulisses.
     Surpreendido, e at um pouco orgulhoso pela resoluo do filho, o holands seguiu-o pelo laranjal enluarado, com um olhar que pouco a pouco comeava a sorrir. 
A sua mulher estava atrs dele, com a sua maneira de estar de ndia formosa. O holands falou quando Ulisses fechou o porto.
     - H-de voltar - disse -, espancado pela vida, mais depressa do que tu pensas.
     - s muito duro - suspirou ela. - No voltar nunca.
     Nessa ocasio Ulisses no precisou de perguntar a ningum o rumo de Erndira. Atravessou o deserto escondido em camies de passagem, roubando para comer e dormir, 
e roubando muitas vezes pelo puro prazer do risco, at que encontrou a barraca noutra povoao do mar, da qual se viam os edifcios de vidro de uma cidade iluminada 
e onde ressoavam os adeuses nocturnos dos navios que levantavam ferro para a ilha de Aruba. Erndira estava adormecida, acorrentada  barra e na mesma posio de 
afogado  deriva, em que o tinha chamado. Ulisses ficou a contempl-la um grande espao de tempo sem a acordar, mas contemplou-a com tanta intensidade que Erndira 
acordou. Ento beijaram-se na obscuridade, acariciaram-se sem pressa, despiram-se at  fadiga, com uma ternura silenciosa e uma felicidade recndita que se pareceram 
mais do que nunca com o amor.
     No outro extremo da barraca, a av adormecida deu uma volta monumental e comeou a delirar:
     - Isso foi pelos tempos em que chegou o barco grego - disse. - Era uma tripulao de loucos, que faziam felizes as mulheres e no lhes pagavam com dinheiro, 
mas com esponjas, umas esponjas vivas, que depois andavam a caminhar por dentro das casas, gemendo como doentes de hospital e fazendo chorar as crianas para beber 
as lgrimas.
     Endireitou-se com um movimento subterrneo e sentou-se na cama.
     - Foi ento que chegou ele, meu Deus - gritou -, mais forte, mais grande e muito mais homem que Amads.
     Ulisses, que at quele momento no tinha prestado ateno ao delrio, tentou esconder-se quando viu a av sentada na cama. Erndira tranquilizou-o.
     - Fica descansado - disse-lhe. - Sempre que chega a essa parte senta-se na cama, mas no acorda.
     Ulisses encostou-se ao seu ombro.
     - Eu nessa noite estava a cantar com os marinheiros e pensei que era um tremor de terra - continuou a av. - Todos devem ter pensado o mesmo, porque fugiram 
a dar gritos, mortos de riso, e s fiquei eu sob o coberto de trepadeiras. Recordo como se tivesse sido ontem que eu estava a cantar a cano que todos cantavam 
naqueles tempos. At os papagaios, nos ptios, cantavam.
     Sem tom nem som, como s  possvel cantar nos sonhos, cantou as linhas da sua amargura:
     Senhor, Senhor, devolve-me a minha antiga inocncia, para gozar o seu amor outra vez desde o princpio.
     S ento Ulisses se interessou pela nostalgia da av.
     - L estava ele - dizia -, com um papagaio no ombro e um trabuco de matar canibais, como chegou Guatarral s Guianas, e eu senti o seu alento de morte quando 
se especou em frente de mim e me disse: "Dei mil vezes a volta ao mundo e vi todas as mulheres de todas as naes, de maneira que tenho autoridade para dizer-te 
que s a mais altiva e a mais diligente, a mais formosa da Terra".
     Deitou-se de novo e soluou na almofada. Ulisses e Erndira permaneceram um grande momento em silncio, embalados na penumbra pela respirao descomunal da 
anci adormecida. De repente, Erndira perguntou, sem uma fraqueza mnima na voz:
     - Serias capaz de a matar?
     Apanhado de surpresa, Ulisses no soube que responder.
     - Quem sabe - disse. - Tu s capaz?
     - Eu no posso - disse Erndira -, porque  minha av. Ento Ulisses observou outra vez o enorme corpo adormecido, como se estivesse a medir a sua quantidade 
de vida, e decidiu:
     - Por ti sou capaz de tudo.
     Ulisses comprou uma libra de veneno para ratazanas, misturou-a com nata de leite e marmelada de framboesa e verteu aquele creme mortal dentro de uma empada, 
 qual tinha tirado o seu recheio de origem. Depois ps-lhe por cima um creme mais denso, arranjando-o com uma colher at que no ficou nenhum vestgio da manobra 
sinistra, e completou o engano com setenta e duas velazinhas rseas.
     A av endireitou-se no trono brandindo o bordo ameaador quando o viu entrar na barraca com a empada de festa.
     - Descarado - gritou. - Como te atreves a pr os ps nesta casa!
     Ulisses escondeu-se por detrs da sua cara de anjo.
     - Venho para lhe pedir perdo - disse -, hoje, dia do seu aniversrio.
     Desarmada pela sua mentira certeira, a av mandou pr a mesa como para um jantar de boda. Sentou Ulisses  sua direita, enquanto Erndira os servia, e, depois 
de apagar as velas com um sopro arrasador, cortou a empada em partes iguais. Serviu Ulisses.
     - Um homem que sabe fazer-se perdoar tem ganha a metade do cu - disse. - Deixo-te o primeiro pedao, que  o da felicidade.
     - No gosto de doce - disse ele. - Bom proveito.
     A av ofereceu a Erndira outro pedao de empada. Ela levou-o para a cozinha e deitou-o no caixote do lixo.
     A av comeu sozinha todo o resto. Metia os pedaos inteiros na boca e engolia-os sem mastigar, gemendo de gozo e olhando para Ulisses do limbo do seu prazer. 
Quando no teve mais no seu prato, comeu tambm o que Ulisses tinha desprezado. Enquanto mastigava o ltimo bocado, apanhava com os dedos e metia na boca as migalhas 
da toalha.
     Tinha comido arsnico bastante para exterminar uma gerao de ratazanas. No entanto, tocou piano e cantou at  meia-noite, deitou-se feliz e conseguiu um sono 
natural. O nico indcio novo foi um rastro pedregoso na sua respirao.
     Erndira e Ulisses vigiaram-na da outra cama e s esperavam pelo seu estertor final. Mas a voz era to viva como sempre, quando comeou a delirar.
     - Ps-me louca, meu Deus, ps-me louca! - gritou. - Eu punha duas trancas no quarto de dormir, para que no entrasse, punha o toucador e a mesa contra a porta 
e duas cadeiras sobre a mesa, e bastava que ele desse uma pancadinha com o anel para que as barricadas russem, as cadeiras desciam por si mesmas da mesa, a mesa 
e o toucador afastavam-se por si mesmos, as trancas saam por si mesmas das argolas.
     Erndira e Ulisses contemplavam-na com um assombro crescente,  medida que o delrio se tornava mais profundo e dramtico e a voz mais ntima.
     - Eu sentia que ia morrer, empapada em suor de medo, suplicando por dentro que a porta se abrisse sem abrir-se, que ele entrasse sem entrar, que no partisse 
nunca, mas que tambm no voltasse jamais, para no ter de mat-lo.
     Continuou a recapitular o seu drama durante vrias horas, at nos seus detalhes mais nfimos, como se o tivesse voltado a viver no sonho. Pouco antes do amanhecer 
virou-se na cama com um movimento de acomodao ssmica e a voz quebrou-se-lhe com a iminncia dos soluos.
     - Eu preveni-o, e riu-se - gritava -, voltei a preveni-lo e voltou a rir-se, at que abriu os olhos aterrados, dizendo: "Ai rainha! Ai rainha", e a voz no 
lhe saiu pela boca, mas pela facada da garganta.
     Ulisses, espantado com a tremenda evocao da av, agarrou a mo de Erndira.
     - Velha assassina! - exclamou.
     Erndira no lhe prestou ateno, porque nesse instante comeou a despontar a alvorada. Os relgios bateram as cinco.
     - Vai-te embora! - disse Erndira. -J vai acordar.
     - Est mais viva do que um elefante - exclamou Ulisses. - No pode ser!
     Erndira atravessou-o com um olhar mortal.
     - O que acontece - disse -  que tu no serves nem para matar ningum.
     Ulisses impressionou-se tanto com a crueza da censura que se evadiu da barraca. Erndira continuou a observar a av adormecida, com o seu dio secreto, com 
a raiva da frustrao,  medida que se levantava o amanhecer e se ia despertando o ar dos pssaros. Ento a av abriu os olhos e olhou-a com um sorriso plcido.
     - Deus te salve, filha.
     A nica mudana notvel foi um princpio de desordem nas normas quotidianas.
     Era quarta-feira, mas a av quis pr um vestido de domingo, decidiu que Erndira no recebesse nenhum cliente antes das onze e pediu-lhe que lhe pintasse as 
unhas de cor de rom e lhe fizesse um penteado pontifical.
     - Nunca tinha tido tanta vontade de tirar um retrato - exclamou.
     Erndira comeou a pente-la, mas, ao passar o pente de desenredar, ficou entre os dentes um molho de cabelos. Mostrou-o, assustada,  av. Ela examinou-o, 
tentou arrancar-se outra mecha grande com os dedos, e outro arbusto de cabelos lhe ficou na mo. Deitou-o ao cho e experimentou outra vez, e arrancou uma madeixa 
maior. Ento comeou a arrancar-se o cabelo com as duas mos, morta de riso, atirando os punhados ao ar, com um jbilo incompreensvel, at que a cabea lhe ficou 
como um coco pelado.
     Erndira no voltou a ter notcias de Ulisses at duas semanas mais tarde, quando ouviu fora da barraca o chamamento da coruja. A av tinha comeado a tocar 
piano e estava to absorta na sua nostalgia que no se dava conta da realidade. Tinha na cabea uma peruca de penas radiantes.
     Erndira acudiu ao chamamento e s ento descobriu a mecha de detonante que saa da caixa do piano e se prolongava por entre a maleza e se perdia na escurido. 
Correu na direco em que estava Ulisses, escondeu-se junto dele entre os arbustos, e ambos viram, com o corao oprimido, a chamazinha azul que se foi pela mecha 
do detonante, atravessou o espao escuro e penetrou na barraca.
     - Tapa os ouvidos - disse Ulisses.
     Ambos o fizeram, sem que fosse preciso, porque no houve exploso. A tenda iluminou-se por dentro com uma deflagrao radiante, estalou em silncio e desapareceu 
numa tromba de fumo de plvora molhada. Quando Erndira se atreveu a entrar, pensando que a av estava morta, encontrou-a com a peruca chamuscada e a camisa em farrapos, 
mas mais viva do que nunca, tentando sufocar o fogo com uma manta.
     Ulisses escapuliu-se, ao abrigo da gritaria dos ndios, que no sabiam que fazer, confundidos pelas ordens contraditrias da av. Quando conseguiram, por fim, 
dominar as chamas e dissipar o fumo, encontraram-se perante uma viso de naufrgio.
     - Parece coisa do maligno - disse a av. - Os pianos no estalam por acaso.
     Fez toda a espcie de conjecturas para estabelecer as causas do novo desastre, mas as evasivas de Erndira e a sua atitude impvida acabaram de confundi-la. 
No encontrou a mnima fissura no comportamento da neta, nem se lembrou da existncia de Ulisses. Esteve acordada at de madrugada, tecendo suposies e fazendo 
clculos dos prejuzos. Dormiu pouco e mal. Na manh seguinte, quando Erndira lhe tirou o colete das barras de ouro, encontrou-lhe bolhas de fogo nos ombros e o 
peito em carne viva. "Razes tinha eu para dormir a dar voltas", disse, enquanto Erndira lhe deitava claras de ovo nas queimaduras. "E, alm disso, tive um sonho 
estranho." Fez um esforo de concentrao, para evocar a imagem, at que a teve, to ntida na memria como no sonho.
     - Era um pavo numa rede de balouo branca - disse. Erndira surpreendeu-se, mas refez imediatamente a sua
     expresso quotidiana.
     -  um bom anncio - mentiu. - Os paves dos sonhos so animais de longa vida.
     - Deus te oua - disse a av -, porque estamos outra vez como no princpio.  preciso comear de novo.
     Erndira no se perturbou. Saiu da barraca com a bandeja das compressas e deixou a av com o torso embebido de claras de ovo e o crnio besuntado de mostarda.
     Estava a deitar mais claras de ovo na bandeja, sob o alpendre de palmas que servia de cozinha, quando viu aparecer os olhos de Ulisses por detrs do fogo, 
como o viu a primeira vez por detrs da sua cama. No se surpreendeu, mas disse-lhe, com uma voz de cansao:
     - A nica coisa que conseguiste foi aumentar-me a dvida.
     Os olhos de Ulisses turvaram-se de ansiedade. Permaneceu imvel, olhando para Erndira em silncio, vendo-a partir os ovos com uma expresso fixa, de absoluto 
desprezo, como se ele no existisse. Ao cabo dum momento, os olhos moveram-se, revistaram as coisas da cozinha, as panelas penduradas, rstias de escrdios, os pratos, 
a faca de esquartejar. Ulisses endireitou-se, sempre sem dizer nada, entrou sob o alpendre e despendurou a faca.
     Erndira no se virou para o olhar, mas, no momento em que Ulisses abandonava o alpendre, disse-lhe, em voz muito baixa:
     - Tem cuidado, que j teve um aviso da morte. Sonhou com um pavo e uma rede de balouo branca.
     A av viu entrar Ulisses com a faca, e, fazendo um supremo esforo, endireitou-se sem a ajuda do bordo e levantou os braos.
     - Rapaz! - gritou. - Tornaste-te louco.
     Ulisses saltou-lhe em cima e deu-lhe uma facada certeira no peito desnudado. A av lanou um gemido, atirou-se-lhe em cima e tentou estrangul-lo com os seus 
potentes braos de urso.
     - Filho da puta - grunhiu. - Demasiado tarde reparo que tens cara de anjo traidor.
     No pde dizer mais nada, porque Ulisses conseguiu libertar a mo com a faca e assentou-lhe com uma segunda facada nas costas. A av soltou um gemido recndito 
e abraou com mais fora o agressor. Ulisses assentou um terceiro golpe, sem piedade, e um jorro de sangue expulso a alta presso salpicou-lhe a cara: era um sangue 
oleoso, brilhante e verde, igual ao mel de menta.
     Erndira apareceu na entrada, com a bandeja na mo, e observou a luta com uma impavidez criminosa.
     Grande, monoltica, grunhindo de suor e de raiva, a av aferrou-se ao corpo de Ulisses. Os seus braos, as suas pernas, at o seu crnio pelado, estavam verdes 
de sangue. A enorme respirao de fole, transtornada pelos primeiros estertores, ocupava todo o ambiente. Ulisses conseguiu outra vez libertar o brao armado, abriu 
um talho na barriga, e uma exploso de sangue empapou-o de verde at aos ps. A av tentou apanhar o ar que j lhe fazia falta para viver e deixou-se cair de bruos. 
Ulisses soltou-se dos braos exaustos e, sem permitir-se um instante de trgua, assentou no vasto corpo cado a facada final.
     Erndira ps ento a bandeja numa mesa, inclinou-se sobre a av, observou-a bem, sem lhe tocar, e, quando se convenceu de que estava morta, o seu rosto adquiriu 
subitamente toda a madureza de pessoa adulta que no lhe tinham dado os seus vinte anos de infortnio. Com movimentos rpidos e precisos, pegou no colete de ouro 
e saiu da barraca.
     Ulisses permaneceu sentado junto do cadver, esgotado pela luta, e quanto mais tentava limpar a cara mais a lambuzava com aquela matria verde e viva que parecia 
fluir dos seus dedos. S quando viu sair Erndira com o colete de ouro tomou conscincia do seu estado.
     Chamou-a, com gritos, mas no recebeu nenhuma resposta. Arrastou-se at  entrada da barraca e viu que Erndira comeava a correr pela beira-mar em direco 
oposta  da cidade. Ento fez um ltimo esforo para persegui-la, chamando-a com uns gritos desgarrados que j no eram de amante, mas de filho, mas venceu-o o terrvel 
esgotamento de ter matado uma mulher sem a ajuda de ningum.
     Os ndios da av encontraram-no deitado de bruos na praia, chorando de solido e de medo.
     Erndira no o tinha ouvido. Ia a correr contra o vento, mais veloz que um veado, e nenhuma voz deste mundo a podia deter. Passou a correr, sem virar a cabea, 
pelo vapor ardente dos charcos de salitre, pelas crateras de talco, pelo torpor das palafitas, at que se acabaram as cincias naturais do mar e comeou o deserto, 
mas ainda continuou a correr, com o colete de ouro, mais alm dos ventos ridos e dos entardeceres de nunca acabar, e jamais se voltou a ter a menor notcia dela 
nem se encontrou o vestgio mais nfimo da sua desgraa.
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